Desporto
Sofia Oliveira: “Porque não é futebol, há menos patrocínios, menos apoios”
Sofia Oliveira ficará para sempre na história. Foi a primeira portuguesa a conquistar uma medalha de ouro num Campeonato Mundial de Kickboxing.
Em Abu Dhabi, a atleta famalicense, que veste as cores do Desportivo de Guimarães, superou na final a ucraniana Alina Martyniuk, numa luta na qual comandou de princípio a fim e em que triunfou por 3-0.
Dito assim até parece simples, mas a programadora informática, que vive em Mogege, Vila Nova de Famalicão, colocou, nas últimas duas décadas, a vida pessoal em segundo plano para se dedicar ao kickboxing. “Já estava a ser muito difícil conciliar toda a minha vida porque tenho que trabalhar na mesma e deixar o desporto para as horas vagas…” conta ao OPINIÃO PÚBLICA.
Mas o esforço de 20 anos levou à recompensa, e a vitória e a subida ao pódio, com o hino nacional a tocar, trouxe reconhecimento à modalidade e a quem a pratica. “Tenho orgulho no título porque é sinónimo do esforço que dei à modalidade e acho que, sobretudo, abre portas para outros terem mais esperança, oportunidade para estes eventos muito difíceis de superar”, frisa a campeã do Mundo de Kickboxing que considera que os portugueses, que começam a impor respeito, estão a ser levados em linha de conta. “Isso é o melhor que posso dar à modalidade”.
Mas o pensamento de Sofia está, sobretudo, com as mulheres que gostam de kickboxing. “Ainda bem que foram duas mulheres a ficar com o título de campeãs do mundo, eu e a Catarina Dias. Neste tipo de campeonatos Portugal traz, normalmente, poucas medalhas e isso está a mudar”.
Sofia começou a praticar a modalidade com sete anos incentivada pelo pai e com o objetivo de aprender a defender-se, juntamente com a irmã.
Agora, chegada ao topo, quer passar os seus objetivos pessoais para primeiro plano e vai, por isso, terminar a sua participação neste nível de competição, como campeonatos do mundo e da europa. O plano está traçado e Sofia Oliveira prefere acabar desta forma a sua carreira profissional de atleta “porque tudo tem um fim e prefiro acabar no alto do que ser obrigada a deixar porque não tenho mais possibilidades”.
“Vou dedicar-me mais à vertente profissional o que fará com que não tenha que fazer uma gestão tão apertada dos dias de férias e tempo livre, e vou conseguir continuar no kickboxing, mas de uma forma diferente”. Neste sentido, um dos objetivos de Sofia é, dentro de um ano ou dois, abrir uma academia sua e continuar como treinadora. Mais uma vez, e porque lhe toca especialmente, a atleta quer ajudar, especificamente, mulheres. “Uma área que gosto muito é o pré e o pós parto porque a mulher, com todas as dificuldades que tem, tira muitos benefícios com este desporto”.
Contando exclusivamente com verbas próprias, a atleta considera que há “pouquíssimos apoios” para quem pratica a modalidade, alertando para os elevados custos das competições e de todo o trabalho que as antecede. A campeã do Mundo considera que essa falta de apoio pode estar associada ao preconceito em relação à modalidade.
“Porque não é olímpica e não é futebol, há menos patrocínios, menos apoios… Eu acho que paguei do meu bolso todos os campeonatos em que participei”, diz Sofia, que considera que 20 anos depois de subir pela primeira vez ao ringue “não mudou nada”. “Acho que a Câmara Municipal de Famalicão está a evoluir nessa parte, mas quanto a empresas e patrocínios ainda não estão evoluídos e não estão a ajudar… Não sei, quem sabe um dia”, aponta a atleta que gastou quase dois mil euros para participar no Campeonato do Mundo.
A atleta famalicense não esconde as dificuldades na logística pessoal que teve para conciliar, ao longo dos anos, os treinos bidiários com o trabalho como desenvolvedora de SAP. Mas há um segredo para a superação. Um bom suporte familiar e viver numa boa comunidade são a chave. “Desde o primeiro momento que os meus pais e a minha irmã me apoiam, depois tenho o meu treinador e Mogege sempre me ajudou”, frisa Sofia Oliveira, que considera que é uma comunidade que recebe sempre bem, apesar de ser uma modalidade desconhecida. “Acredito que vamos evoluir e um dia isso vai mudar”.


