Economia
A ciência por trás dos Têxteis Desportivos

O setor dos têxteis desportivos, frequentemente designados por activewear ou performance wear, representa hoje um dos segmentos mais avançados da engenharia de materiais a nível global e em Vila Nova de Famalicão existem empresas que provam exatamente isso. Desde logo, porque as suas marcas são escolhidas, nomeadamente as meias, pela maioria dos clubes desportivos.
Ao contrário do vestuário de moda convencional, onde a estética predomina, no desporto a prioridade é a função fisiológica e o conforto. Assim, a base desta indústria assenta numa revolução das matérias-primas. Historicamente, o algodão foi abandonado na alta competição devido à sua elevada capacidade de absorção de água (hidrofilidade), que torna as peças pesadas e frias quando molhadas. O mercado moderno é dominado pelas fibras sintéticas, nomeadamente o poliéster e a poliamida (nylon).

O “santo graal” dos têxteis desportivos é a gestão da humidade e a termorregulação. O objetivo não é impedir o suor — um mecanismo vital de arrefecimento do corpo — mas sim transportá-lo rapidamente da pele para a camada exterior do tecido, onde pode evaporar. Este processo, denominado tecnicamente como “wicking” ou capilaridade, é conseguido através da alteração da forma das fibras (frequentemente trilobais ou com canais microscópicos) que aumentam a área de superfície e guiam a água para fora. Em condições de frio, a lógica inverte-se ou complementa-se: utilizam-se estruturas de malha cardada ou fibras ocas que aprisionam o ar, criando uma barreira térmica isolante sem adicionar peso excessivo.
Para além da fibra em si, a construção do tecido evoluiu drasticamente com a tecnologia seamless (sem costuras) e a compressão graduada. A tecnologia seamless, produzida em teares circulares eletrónicos, elimina os pontos de costura tradicionais, que são as principais causas de irritação e ferimentos na pele de atletas de resistência (como maratonistas). Já os têxteis de compressão são desenvolvidos com mapeamento corporal preciso para exercer pressões específicas em diferentes grupos musculares. Estudos indicam que esta compressão auxilia no retorno venoso, reduz a oscilação muscular durante o impacto (poupando energia) e acelera a remoção de ácido lático, facilitando a recuperação pós-treino.
A nanotecnologia e os acabamentos químicos funcionais representam a camada final de inovação. Atualmente, é comum a aplicação de nanopartículas de prata ou outros agentes biocidas para conferir propriedades antibacterianas, impedindo a proliferação das bactérias que causam o mau odor. Do mesmo modo, acabamentos hidrorrepelentes (DWR) protegem o atleta da chuva leve sem sacrificar a respirabilidade, enquanto tratamentos UV bloqueiam a radiação solar nociva em desportos ao ar livre. Em modalidades onde a velocidade é crítica, como o ciclismo ou a natação, a engenharia têxtil foca-se na aerodinâmica e hidrodinâmica, desenvolvendo texturas que mimetizam a pele de tubarão para reduzir a resistência ao ar ou à água, permitindo ganhos de tempo que, embora medidos em milésimos de segundo, decidem medalhas olímpicas.

O futuro deste setor caminha agora para a integração eletrónica e a sustentabilidade. Os “Smart Textiles” ou têxteis inteligentes incorporam sensores condutores diretamente na trama do tecido, capazes de monitorizar o ritmo cardíaco, a temperatura corporal e até a postura do atleta, transmitindo dados em tempo real. Simultaneamente, a indústria enfrenta o desafio da sustentabilidade, com um crescimento exponencial na utilização de poliéster reciclado (rPET) proveniente de garrafas de plástico e o desenvolvimento de polímeros biodegradáveis, procurando manter a alta performance técnica enquanto reduz a pegada ecológica de materiais que, por natureza, derivam da petroquímica.


