Economia
AIMMAP: “números indicam que o setor está a caminhar para um novo recorde histórico em 2025”
Rafael Campos Pereira, vice-presidente da AIMMAP está otimista em relação aos números das exportações de 2025, que caminham para um novo recorde histórico. Não obstante, antevê um ano de desafios para o setor, desde logo pelo cenário europeu e mundial. Na entrevista ao OPINIÃO PÚBLICA, o responsável acredita na resiliência e coragem das empresas portuguesas, que, apesar de sofrerem com a falta de mão de obra qualificada, estão, na sua opinião, na vanguarda do investimento em qualidade, inovação, tecnologia.
Carla Alexandra Soares
OPINIÃO PÚBLICA: O setor metalúrgico e metalomecânico esperava para 2025 um novo recorde nas exportações. Isso aconteceu?
Rafael Campos Pereira: Os números finais do ano de 2025 ainda não foram publicados. Serão conhecidos dentro de alguns dias, mas todos os indicadores que temos até ao momento confirmam que o setor está a caminhar para um novo recorde histórico em 2025, com exportações acima dos 24 mil milhões de euros, superando marginalmente os valores de 2023 – ano em que já tínhamos atingido o nosso máximo (24.017 milhões de euros).
Os valores acumulados entre janeiro 2025 e novembro 2025, representam um crescimento homólogo de 4,3%, um resultado que destacamos como sendo particularmente positivo no contexto conjuntural que o mundo atravessa. Aliás, em 2025 houve alguns meses em que o registo das exportações do setor saltou diretamente para o TOP 10 dos melhores meses de sempre, como foi o caso do mês de novembro que foi o 6º melhor mês de sempre.
Quais as perspetivas para 2026? O ano passado falou-nos de resiliência e coragem. Este sentimento de imprevisibilidade continua?
Apesar de mostrarmos no setor metalúrgico e metalomecânico uma enorme resiliência e capacidade de adaptação, as economias estão hoje mais inquietas do que nunca face à conjuntura internacional, às políticas europeias e ao aumento das tarifas sobre o aço.
A economia global continua a enfrentar choques macroeconómicos com consequências ainda imprevisíveis. Há toda uma nova “ordem” de comércio internacional e estamos a passar de um paradigma de globalização, para um paradigma de protecionismo. É fundamental que a política europeia saiba equilibrar as políticas económicas de forma a proteger a indústria interna face aos seus principais concorrentes, que estão neste momento com políticas protecionistas muito completas e assertivas
As políticas europeias e o aumento das tarifas sobre o aço, por exemplo, são hoje fatores que afetam diretamente a perda de competitividade das empresas do setor metalúrgico e metalomecânico.
Há, portanto, um pesado sentimento de incerteza, agravado pela instabilidade global, pressões regulatórias e subida de custos das matérias primas. Ainda assim, neste setor resiliente, prevalece sempre um sentimento de confiança, porque o setor tem diversificado mercados, reforçado competências e mantido encomendas sólidas mesmo em cenários adversos.

Que desafios, perante os diversos cenários, nomeadamente da continuação da guerra na Ucrânia e Gaza e o cenário político dos EUA, se colocam ao setor? A economia americana continua a ter um fortíssimo impacto na economia global…
A instabilidade geopolítica impacta diretamente um setor tão exposto ao comércio internacional como o nosso.
Desde a volatilidade nos preços das matérias primas, já agravados pela escalada de tarifas e pela pressão sobre cadeias de abastecimento, ao risco de retração da procura e ao aumento dos custos logísticos são fatores de preocupação.
Naturalmente que a incerteza e volatilidade das decisões da administração Trump são também aqui um fator de peso, até porque os EUA continuam a ser um dos principais players da geopolítica e da economia mundial e influenciam diretamente os nossos fluxos de exportação.
Embora o setor metalúrgico e metalomecânico esteja globalmente pouco exposto ao mercado americano (apenas cerca de 3% das exportações globais do setor se destinam diretamente àquele mercado), sabemos que indiretamente os efeitos são bem mais significativos. Mas este setor é experiente, e já resistiu a vários choques macroeconómicos, aprendendo a diversificar mercados, diversificar produtos, serviços e até modelos de negócio.
A diversificação de mercados será aqui uma estratégia vital, e estou certo de que as empresas do setor vão saber explorar muito bem as oportunidades que vão surgir dos Acordos Comerciais celebrados recentemente entre a EU e o Mercosul e a Índia.
No que diz respeito às políticas de Economia, muitos setores acusam os sucessivos governos de não tomarem medidas para o crescimento, nomeadamente que apoiem as empresas em vez de lhes complicarem a vida… Considera que o Orçamento de Estado para 2026 satisfaz as mais de mil empresas que a AIMMAP representa?
A orientação do OE parece privilegiar medidas de curto prazo com impacto imediato nos custos salariais, mas falha em apresentar uma estratégia coerente e robusta para reforçar o investimento, a produtividade, a resiliência e o crescimento sustentável das empresas.
O OE revela escassez de medidas mais ambiciosas que promovam a transformação estrutural do tecido empresarial. Persistem lacunas ao nível de incentivos à recapitalização, essenciais num contexto em que muitas empresas continuam descapitalizadas após os sucessivos choques recentes. Do mesmo modo, há insuficiência de estímulos à inovação, à capacitação, à modernização tecnológica e ao aumento de escala, fatores determinantes para que as empresas portuguesas possam competir em mercados globais e escapar ao ciclo de baixa produtividade.
Além disso, não zela como devia, pela sustentabilidade das empresas e da economia. Em particular, a pressão adicional resultante do aumento do salário mínimo e da atualização transversal de salários, tal como prevista no OE, gera um impacto potencialmente significativo nos custos operacionais das empresas, com consequências devastadoras tendo em conta a composição do tecido empresarial nacional por micro e PME.
Embora a valorização salarial seja um objetivo legítimo e desejável, o risco emerge quando tais aumentos não são acompanhados por medidas eficazes de estímulo à produtividade. Sem ganhos de eficiência, digitalização ou modernização de processos, muitas micro e PME enfrentarão dificuldades acrescidas para absorver estes custos, podendo comprometer a sua competitividade e sustentabilidade financeira.

O presidente da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal, Vítor Neves, defendeu, recentemente, ser mais importante aumentar os incentivos fiscais ao investimento das empresas do que reduzir a taxa de IRC… Concorda?
Totalmente. Para um setor altamente exportador, inovador e competitivo, o que realmente pode fazer a diferença é uma política de apoios para responder com eficácia aos desafios do setor — digitalização, inovação, crescimento, produtividade e exportação.
Na verdade, há um conjunto de medidas que consideramos fundamentais para acelerar o crescimento da economia nacional, como é o caso da troca de impostos por investimento através do crédito fiscal ao investimento, ou a troca de impostos por rendimento, garantindo que aumentos acima do salário médio a ficarem livres de impostos.
Disse ainda que estão a ser tomadas decisões erradas em termos de políticas públicas, nomeadamente ao nível da despesa, que é gerida à custa da despesa corrente e permanente do Estado, com prejuízo para o investimento… O que é que isto significa para as empresas? Um retrocesso?
O forte crescimento da despesa pública é preocupante e é um fator que impede uma descida mais acentuada dos impostos. Mas ao nível das políticas públicas, não é só a despesa que nos preocupa. A carga burocrática e a ineficácia das entidades públicas, são hoje um dos principais custos de contexto para as nossas empresas e podem ser mesmo apontadas como fatores determinantes para a baixa produtividade da nossa economia.
As políticas públicas frequentemente impedem políticas verdadeiramente orientadas para o crescimento e condicionam a capacidade das empresas para investir e expandir.
É urgente alterar este paradigma.
Assim sendo, quais são os principais desafios futuros para o setor?
O setor metalúrgico e metalomecânico português enfrenta atualmente uma conjugação complexa de desafios internacionais que têm origem tanto na instabilidade geopolítica como nas alterações profundas das políticas comerciais globais e particularmente europeias. A tudo isto acresce naturalmente o que disse anteriormente face às políticas públicas nacionais.
O prolongamento dos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente continua a gerar perturbações significativas nas cadeias de abastecimento, contribuindo para a volatilidade dos preços das matérias primas e para o aumento dos custos logísticos. Paralelamente, decisões como a duplicação das tarifas europeias sobre as importações de aço para 50% estão a pressionar a competitividade de um setor altamente dependente destas matérias, enquanto as políticas de Donald Trump criam diariamente fatores de incerteza e novos obstáculos.
As políticas industriais europeias, frequentemente marcadas por contradições e medidas desalinhadas com as necessidades da indústria transformadora, agravam igualmente o ambiente competitivo, enquanto a escassez de mão de obra qualificada continua a limitar a expansão da capacidade produtiva e o crescimento sustentado do setor.

A escassez de mão de obra qualificada continua a ser um problema…
É um obstáculo muito relevante ao crescimento das nossas empresas. Este problema ameaça a capacidade de resposta às encomendas e restringe oportunidades de expansão.
O governo tem de implementar medidas de incentivo para que a população em idade ativa procure emprego, para que o país consiga reter talento, e criar condições para que os ecossistemas de formação funcionem de facto e consigam dar resposta às várias exigências, incluindo a formação ao longo da vida, verdadeiramente fundamental num setor que nasce de uma base tradicional e know-how acumulado, e que se moderniza e automatiza a grande velocidade.
É, portanto, fundamental que Portugal segure a sua natureza de pequena economia aberta, assegurando uma regulamentação equilibrada e sustentável no que respeita à entrada de estrangeiros, tendo como certo que é graças às pessoas que recebemos que o nosso saldo demográfico não está hoje em níveis tão preocupantes.
O que é produzido em Portugal por este setor tem qualidade?
Sem dúvida. O Metal Portugal é hoje reconhecido como um parceiro de altíssimo nível tecnológico, integrado em cadeias de valor internacionais sofisticadas.
Somos competitivos porque investimos em engenharia e tecnologia, temos elevada capacidade de adaptação, e garantimos níveis de qualidade exigidos pelos setores mais avançados, como automóvel, aeronáutica e energia e Defesa.
A vossa associação propõe-se projetar um setor “forte e robusto” para um patamar superior. Isso tem sido conseguido? Quais os principais passos que têm dado?
Sim, temos avançado de forma muito consistente nesse objetivo, e a estratégia está a dar frutos, como demonstram os nossos resultados de exportações, diversificação de mercados e capacidade de resistir a choques globais.
A AIMMAP definiu, no seu Plano Estratégico e de Ação até 2030, um conjunto estruturado de prioridades e projetos que já estão em implementação e que visam precisamente tornar o setor mais forte, robusto, competitivo e sustentável.
O caminho traçado assenta em cinco grandes eixos estratégicos: crescimento, produtividade, sustentabilidade, capacitação e imagem.
Deste modo, o setor está a tornar-se mais forte e robusto, e isso resulta da execução disciplinada de um plano claro, orientado para crescer mais, produzir melhor, ser mais sustentável, atrair e qualificar pessoas, elevar a imagem e o posicionamento internacional.
A AIMMAP não se limitou a definir ambições — traçou um roteiro, identificou projetos estruturantes e está a concretizá-los, preparando o setor para um patamar superior até 2030 e que dará seguramente continuidade no futuro.
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