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Famalicão

Jornal Opinião Pública suspende impressão em papel por tempo indeterminado

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A Câmara Municipal de Famalicão lançou, na passada semana, uma publicação em papel à qual deu nome de “efe”, em formato jornal. No total, foram publicados 61.750 jornais para distribuição gratuita pela população, mais 10 mil jornais do que o número de habitações existentes no concelho de Famalicão.

À primeira vista, pode parecer apenas mais uma forma de a autarquia comunicar com as pessoas. Mas, se olharmos com atenção, percebemos que é muito mais do que isso: é uma cópia perfeita de um jornal a sério. E isso é perigoso. Porquê? Porque confunde quem lê e asfixia os jornais como o nosso, que apenas vive à custa dos seus anunciantes (onde se inclui, aliás, a própria autarquia, sempre que pretende publicitar as suas festas e demais eventos).

Um boletim municipal travestido de jornal

Utilizando uma linguagem meramente jornalística e com nomes de rubricas como “Lés a Lés” ou “À Conversa Com” – utilizados, há vários anos, pelos nossos órgãos de comunicação social, assim se apresenta esta publicação travestida de jornal familiar para ganhar a sua confiança. Escrevem com cara de notícia, usam grandes títulos e até utilizam expressões como “em primeira mão”. Mais à frente, ainda publicam reportagens que nos foram vedadas, para que fosse o “efe” a fazê-lo. Como? Em primeira mão, evidentemente.

Mas sejamos francos: uma Câmara não dá “notícias”, muito menos em primeira mão. Uma Câmara emite comunicados, quando muito emite “informações”. Chamar a isto “notícias” é desvalorizar o trabalho de quem as vem fazendo a tempo inteiro ao longo dos anos, em troca de um mísero ordenado, que não paga a desproteção que, infelizmente, caracteriza a profissão de jornalista nos nossos dias.

O jornal “efe é uma concorrência impossível de bater

Pensemos na realidade diária dos jornais regionais. Todas as semanas têm de pagar o papel (cujos custos não param de subir), a impressão, a distribuição e, claro, os (pequenos) salários de quem aqui trabalha. Os jornais sobrevivem graças aos seus anunciantes que acreditam no valor e importância da comunicação social.

Depois, vem a máquina do município inundar as caixas de correio de toda a população com 24 páginas a “custo zero”. Ao intrometer-se na casa das pessoas, sem ser convidada, com uma publicação que se faz passar por jornal, a autarquia está apenas a pensar no seu umbigo e esquece-se de que está a retirar o espaço e o oxigénio financeiro aos verdadeiros jornais.

Como é que se concorre contra o dinheiro da própria Câmara e contra uma redação municipal composta por mais pessoas do que a totalidade das redações da cidade? É uma concorrência profundamente desleal.

Isto não é uma queixa por azedume, é apenas a nossa tentativa de explicar à população e aos nossos leitores os tempos em que vivemos. Tempos de vaidade e de humildade zero, em que todos querem ter um jornal, ao qual se poderá seguir, quem sabe, um canal de televisão (uma Efe TV, porque não?) com montes de meios técnicos, belas espumas de microfone e caras de apresentadores repescados de um desemprego que provavelmente até teve origem nesta nova normalidade.

Para que fique claro: a publicação “efe” não é um jornal. É um catálogo de propaganda que usa o bom nome da imprensa escrita para se validar.

Caro leitor, quando é a própria Câmara a imprimir e a distribuir em massa a “sua” verdade, tem de haver consequências. A suspensão da edição impressa do jornal Opinião Pública por tempo indeterminado, e que aqui lhe comunicamos, é uma consequência natural destes tempos de asfixia e que lamentamos profundamente.

Aos milhares de leitores que, semanalmente, têm por hábito folhear o nosso OP, fica a promessa de que tudo faremos para voltar a imprimir e a restabelecer este contacto que já dura há 36 anos. Um regresso que dependerá sempre da vontade das empresas livres em investir em projetos de comunicação social livres, assim como da diminuição do desejo desmesurado pela comunicação jornalística por parte de quem competiria trabalhar para melhorar a vida dos seus habitantes.

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