Famalicão
“Amigos do Pelhe” acusam Câmara de Famalicão de desleixo ambiental e denunciam limpezas drásticas em época de nidificação
O grupo informal de cidadãos emitiu um duro manifesto nas redes sociais contra a gestão municipal do Rio Pelhe, a montante do Parque da Devesa. Em causa estão intervenções repentinas nas margens para eventos desportivos, a destruição de refúgios de biodiversidade e o desinvestimento crónico na zona.
O grupo informal de cidadãos “Amigos do Pelhe”, coletivo unido em prol da “valorização da natureza e património do rio Pelhe”, lançou uma contundente denúncia pública visando a atuação da Câmara Municipal de Famalicão. No centro das críticas está a gestão ambiental e a alegada desproteção do património natural do rio, em particular no troço situado a montante do Parque da Devesa, onde intervenções recentes nas margens espoletaram a “profunda indignação” da comunidade.
Limpezas repentinas em pleno período de nidificação
O gatilho para o protesto prendeu-se com a realização de um evento de trail na zona ribeirinha. O grupo faz questão de salvaguardar, desde o primeiro momento, que quem promove e organiza as atividades desportivas ou culturais na natureza “não tem qualquer culpa” pela situação. A responsabilidade total e absoluta é imputada, sim, à autarquia famalicense, a quem cabe o dever legal de fiscalizar, regulamentar, planear e proteger o território.
Os “Amigos do Pelhe” acusam o município de promover uma “propaganda sobre sustentabilidade e pegada verde” que contrasta com a prática real. Segundo o manifesto, a abertura de caminhos e as movimentações de terrenos junto ao rio ocorreram em pleno período de nidificação, resultando na perturbação direta da fauna e da flora que ali tentam resistir.
“Uma coisa seria acolher uma atividade numa margem que já estivesse devidamente estruturada, planeada e cuidada ao longo de todo o ano. Outra coisa completamente diferente é a autarquia permitir limpezas drásticas e repentinas em plena primavera, destruindo o único refúgio que restava à biodiversidade”, lamenta o grupo.
O contraste com o Parque da Devesa e o “esquecimento” a montante
Os cidadãos apontam o dedo ao que classificam de postura “irónica e lamentável” por parte do executivo, acusando-o de focar as atenções e campanhas nos tanques artificiais do Parque da Devesa — “onde os anfíbios parecem quase ter nome e estatuto de proteção” —, enquanto esquece e abandona à sua sorte os charcos naturais e as linhas de água espontâneas localizadas a montante.
Para os “Amigos do Pelhe”, a solução definitiva passaria por um projeto sério de reabilitação ecológica contínua, com a consolidação permanente de vegetação ripícola autóctone. O objetivo seria criar um corredor verde estruturado para o usufruto diário da população e das escolas, em vez de um espaço que “só se limpa à pressa quando há iniciativas pontuais”.
A falta de investimento na área do Vale do Pelhe é também ilustrada com cariz social: de acordo com o grupo, a água da rede pública está apenas agora a chegar àquela zona, expondo o que consideram ser um desinvestimento crónico em benefício de “caminhos rápidos para proveito político”.
Fragmentação de pelouros e críticas ao urbanismo colado ao Parque
A estrutura política da autarquia é identificada como um dos entraves à eficácia ambiental. O grupo aponta que, por ter o pelouro do Ambiente “repartido por vários vereadores”, assiste-se a uma “total ausência de coordenação e fiscalização”, acusando o presidente da Câmara e o seu executivo de fecharem os olhos à realidade em nome de um crescimento não sustentável.
A fechar o coro de críticas, João Clemente, um dos elementos ativos do grupo informal, eleva o tom do alerta e questiona a eficácia da proteção municipal mesmo no principal pulmão verde da cidade:
“Na minha opinião nem o Parque da Devesa é protegido pela Câmara Municipal, pois se fosse protegido não deixavam construir prédios logo colados ao parque. Pelo menos eu já me apercebi que existe menos animais (coelhos, lontras) desde a construção desses edifícios.”
Perante o cenário exposto, os “Amigos do Pelhe” exigem que o poder local assuma de imediato as suas competências legais, implemente medidas urgentes de reabilitação ecológica e garanta uma proteção real, contínua e estruturada de todo o ecossistema do Rio Pelhe.
O Opinião Pública solicitou uma reação ao município famalicense, que até à hora de fecho desta edição ainda não era conhecida.
Quem é quem no Ambiente? A divisão de pelouros no executivo famalicense
A dispersão de competências na gestão ambiental e do território, apontada no manifesto do grupo “Amigos do Pelhe”, reflete-se na orgânica atual do executivo municipal de Vila Nova de Famalicão, onde as responsabilidades estão distribuídas da seguinte forma:
- Presidente Mário Passos: Coordena diretamente a Estratégia de Ambiente e Neutralidade Carbónica.
- Vereador Hélder Pereira: Tutela as Infraestruturas Ambientais e a Gestão de Resíduos (pelouros que acumula com as áreas de Assuntos Jurídicos, Segurança e Fiscalização).
- Vereadora Vânia Marçal: Detém a responsabilidade política sobre a Proteção Civil, Espaços Verdes e Floresta.
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