Famalicão
Amarcultura brilha há 17 anos na Romaria d’Agonia e estreia-se na sétima arte
Há quase duas décadas que a Associação Amarcultura, sediada na freguesia de Calendário, leva a sua paixão pelas tradições ao coração da Romaria de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo. Sendo a única associação de Famalicão a integrar o prestigiado cortejo histórico, a coletividade consolida, ano após ano, o seu valor etnográfico, um talento que agora já extravasa os desfiles para chegar aos ecrãs do cinema nacional.
A história desta forte ligação a Viana do Castelo começou de forma peculiar. Agostinho Costa, presidente da Amarcultura, recorda que as raízes desta parceria nasceram nos antigos cortejos das Festas Antoninas, em Famalicão, onde a associação trabalhava com técnicos vianenses. Quando o cortejo em Famalicão sofreu alterações, a amizade permaneceu e abriu novas portas.
“Este convite surgiu de uma forma muito inusitada. Em 2009, fomos desafiados a participar no cortejo etnográfico da Senhora da Agonia para fazer uma pequena homenagem a um etnógrafo que também esteve ligado aos primeiros guiões do cortejo de Famalicão e que cumpria 10 anos de falecimento”, explica o presidente. O que começou como uma participação pontual revelou-se um sucesso. “Tivemos uma boa recetividade e um bom impacto. A partir daí, a Viana Festas gostou da nossa participação e continuamos até hoje”, acrescenta.
Com o nível de exigência a subir de ano para ano, a Amarcultura não se fecha sobre si mesma. Para dar resposta aos grandes desafios e coreografias da organização vianense, o grupo conta com o apoio da Junta de Freguesia de Calendário, mas abraça também participantes de freguesias vizinhas como Gavião, Antas, Mogege, Louro e Lemenhe. “O objetivo é também valorizar o trabalho de outros grupos do nosso concelho”, sublinha Agostinho Costa.
Do calor do cortejo ao silêncio da procissão
Nas ruas de Viana do Castelo, o esforço dos muitos ensaios é recompensado pela energia do público. “É uma coisa inexplicável. Há um entusiasmo e uma interação enorme, as pessoas querem participar e interagir connosco. Aplaudem e motivam-nos muito. Para um ator, a base gratificante é o aplauso”, descreve o presidente da associação.
Mas a Amarcultura não se fica apenas pela animação profana. O grupo integra também a procissão, um momento onde a euforia dá lugar à devoção. O associado Rui Paulo destaca a dicotomia destas duas realidades: “A procissão é um momento realmente fantástico. Há um respeito imenso pela parte religiosa. Enquanto no cortejo brincamos e fazemos o nosso papel de animar as pessoas, ali há um silêncio e um respeito profundo pelo momento”.

Uma paixão que atravessa gerações e fronteiras
O amor pelas tradições portuguesas vive-se de diferentes formas dentro da associação, unindo gerações. Santiago Costa, com apenas 13 anos, é o espelho desse compromisso futuro. O jovem, que se estreou nos cortejos com apenas três anos, cumpriu este ano a sua oitava participação. “Sinto muito orgulho e é uma responsabilidade. Não podemos errar no momento, por isso temos muitos ensaios para conseguir executar tudo bem no dia”, garante o jovem famalicense.
Para outros, a Amarcultura é a cura para a saudade. Vítor Cardoso, que esteve emigrado na Suíça durante duas décadas, encontrou na associação o elo perfeito de ligação às raízes que tanto lhe faziam falta. “Lá sentia muito o amor às coisas portuguesas, talvez por causa da saudade. Quando regressei, conheci o Agostinho e retomámos as nossas tradições. Tudo o que tem a ver com a nossa cultura é uma alegria enorme representar. É sentir o nosso Portugal”, confessa com emoção.
Tradição famalicense chega à sétima arte
Para além do sucesso nas romarias do Alto Minho, a Amarcultura tem vindo a expandir os seus horizontes para palcos ainda maiores: o cinema. A associação famalicense começou a dar os primeiros passos na sétima arte, participando como figuração em importantes produções nacionais.
“Surgiu-nos no ano passado um convite para participar no filme “Memórias do Cárcere”. Deu-nos um prazer enorme viver a experiência de estar num set profissional de cinema, perceber o trabalho que está por trás da tela e contactar com atores de grande renome nacional”, revela Agostinho Costa. O sucesso da primeira experiência rapidamente se multiplicou. A associação famalicense já conta com participações em três projetos cinematográficos: depois de “Memórias do Cárcere” de Sérgio Graciano — cuja antestreia acontece em setembro, na Casa das Artes de Famalicão —, o grupo integrou também os elencos de figuração das obras “Aqui”, de Tiago Guedes, e “Ternos Guerreiros”, de Francisco Botelho.
Entre a tradição secular de Viana do Castelo e as luzes da sétima arte, a Amarcultura continua a provar que a cultura em Vila Nova de Famalicão se faz com entrega, brio e um enorme orgulho nas raízes portuguesas.
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