Famalicão
Famalicão cresce à boleia da vaga migratória e com saldo natural negativo no mapa do Norte do país
Os dados da CCDR-N confirmam a subida da população para 143.800 habitantes e a posição de topo no saldo migratório. A autarquia atribui o crescimento a políticas locais, mas omite a crise de natalidade e a pressão do mercado imobiliário dos grandes centros.
A Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão congratulou-se, esta tarde, com a divulgação do estudo “O Novo Mapa Demográfico do Norte”, elaborado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) a partir de estimativas do Instituto Nacional de Estatística (INE). Em comunicado, o executivo liderado por Mário Passos destacou um aumento da população residente de 6,6% entre 2021 e 2025, fixando o total em 143.801 habitantes e apresentando o concelho como um dos territórios mais atrativos da região. O rigor dos números brutos resiste ao escrutínio factual, mas a leitura política promovida pela autarquia omite a dependência absoluta dos fluxos migratórios e os fatores económicos nacionais que empurram novos residentes para o quadrilátero urbano.
A verificação aos dados oficiais confirma que o saldo migratório acumulado no concelho, entre 2021 e 2025, fixou-se nas 9.400 pessoas. O indicador posiciona Famalicão no quinto lugar entre os municípios do Norte com maior capacidade líquida de atração de população, surgindo apenas atrás de grandes centros urbanos e metropolitanos como o Porto, Vila Nova de Gaia, Braga e Matosinhos. A subida populacional de 6,6% supera a média regional de 5,2%, confirmando a pujança do território no eixo constituído pelo Cávado e Ave, muito impulsionada pelo peso e capacidade empregadora do seu tecido industrial.
Todavia, o município atribui esta evolução quase exclusivamente ao impacto das suas estratégias de coesão, habitação e infraestruturas, contornando a vulnerabilidade da demografia local. À semelhança da esmagadora maioria dos concelhos do país, o saldo natural em Famalicão é cronicamente negativo, registando-se mais óbitos do que nascimentos. Todo o crescimento populacional reportado no período pós-Censos é integralmente sustentado pela entrada de migrantes.
Esta aceleração demográfica — em que mais de 90% de todo o ganho migratório acumulado desde 2011 se concentrou apenas nos últimos quatro anos — coincide com dois fenómenos macroeconómicos alheios à gestão autárquica: o surto migratório extraordinário registado em Portugal, a partir de 2021, e a crise de acessibilidade na habitação nos núcleos centrais das áreas metropolitanas do Porto e de Lisboa. A posição geográfica de Famalicão e a proximidade aos grandes eixos viários transformaram o município num recetáculo natural para famílias e trabalhadores que procuram custos de vida comparativamente mais comportáveis.
Se o dinamismo económico e a capacidade de acolhimento do concelho constituem factos demonstrados pela análise da CCDR-N, já a tentativa de converter um movimento migratório e imobiliário de escala nacional num certificado de êxito estritamente político traduz uma leitura parcial da realidade demográfica do território.
No seu comunicado, os serviços de comunicação da autarquia incluem ainda um testemunho de um engenheiro vindo de Lisboa para residir na freguesia de Antas, servindo a narrativa de um território atrativo para quadros altamente qualificados. Contudo, os dados demográficos regionais indicam que o grosso do saldo migratório do Ave e do Cávado é composto por trabalhadores imigrantes internacionais de diversas qualificações que alimentam o setor secundário e os serviços, bem como por migrações pendulares da própria região Norte.
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