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Paz, sim. Mas a que custo?

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Na política, a paz é quase sempre apresentada como uma virtude. E é. O diálogo é melhor do que o conflito permanente, o entendimento é preferível à divisão e a capacidade de construir pontes continua a ser uma das maiores qualidades de quem exerce responsabilidades públicas.

Mas há uma pergunta que não pode ser esquecida, Paz, sim. Mas a que custo?

Porque nem toda a paz representa entendimento. Às vezes representa apenas silêncio.

E silêncio não é necessariamente unidade.

Há uma diferença enorme entre construir consensos e pedir a alguém que abdique das suas convicções. Entre procurar compromissos e exigir submissão. Entre preservar uma organização e preservar apenas equilíbrios de poder.

A política precisa de unidade, naturalmente. Nenhum projeto coletivo sobrevive se todos caminharem permanentemente em direções diferentes. Mas a verdadeira unidade não se constrói eliminando diferenças. Constrói-se aprendendo a conviver com elas.

Os partidos políticos, as instituições e as organizações democráticas não podem transformar-se em espaços onde discordar seja visto como deslealdade.

Lealdade não é obediência cega.

Ser leal também é ter coragem para dizer aquilo que, num determinado momento, pode não ser conveniente ouvir.

É alertar quando alguma coisa está errada.

É discordar quando a consciência assim determina.

É defender princípios mesmo quando seria mais confortável permanecer calado.

Naturalmente, também existe responsabilidade em quem critica. Discordar não significa destruir. Questionar não significa atacar. E ter opinião própria não dispensa respeito pelas instituições, pelas decisões coletivas e pelas pessoas.

É precisamente neste equilíbrio que se mede a maturidade política.

Precisamos de líderes suficientemente fortes para aceitarem opiniões diferentes e de estruturas suficientemente responsáveis para perceberem que nenhuma divergência pode estar acima do projeto coletivo.

Mas há uma linha que não deve ser ultrapassada.

A dignidade de cada pessoa não pode ser o preço da paz.

Quando, para manter uma aparente unidade, é necessário humilhar, silenciar, excluir ou exigir que alguém renuncie àquilo em que acredita, já não estamos perante verdadeiro entendimento. Estamos apenas a adiar um problema.

E há ainda uma questão essencial: a responsabilidade de quem ocupa cargos públicos.

Se cada pessoa que exerce funções políticas, seja a nível internacional, nacional ou local, se concentrasse verdadeiramente na ação política que decorre do cargo que ocupa, talvez a política fosse muito mais útil, mais séria e mais próxima das pessoas.

Quem assume responsabilidades públicas deve preocupar-se, antes de tudo, com o exercício das suas funções, com os problemas concretos que tem de resolver e com a afirmação da sua própria capacidade política no lugar que ocupa.

Não deve transformar o cargo numa plataforma para controlar, à distância, tudo o que acontece noutros níveis de decisão. Nem deve procurar condicionar permanentemente a vida política local apenas para preservar influência, controlar equilíbrios ou garantir protagonismo.

A política não pode ser uma sucessão de tentativas de controlo.

Cada nível de responsabilidade tem a sua importância, as suas competências e os seus desafios. Quem exerce funções internacionais deve responder perante os desafios internacionais. Quem exerce funções nacionais deve concentrar-se nas responsabilidades nacionais. E quem assume funções locais deve ter espaço, autonomia e legitimidade para trabalhar em benefício das suas comunidades.

Quando todos procuram controlar tudo, ninguém se concentra verdadeiramente naquilo que deve fazer.

E quando a afirmação pessoal se sobrepõe à ação política, perde-se o sentido do serviço público.

A política deve ser feita com presença, responsabilidade e compromisso. Não com interferências permanentes, tutelas informais ou tentativas de condicionar quem está no terreno.

Se cada um se preocupasse mais com a qualidade da sua própria ação política e menos com a necessidade de controlar o que acontece à distância, provavelmente estaríamos muito, mas mesmo muito melhor.

Também é legítimo questionar estratégias de recrutamento ou mobilização quando parecem privilegiar a quantidade em detrimento da participação consciente e do compromisso com os valores de uma organização. Atrair novos militantes é importante, mas a sua integração deve assentar no respeito pela liberdade de pensamento, na responsabilidade cívica e na compreensão do projeto coletivo, não apenas na disponibilidade para seguir orientações circunstanciais.

O problema não está em todos os que chegam, nem em todos os que procuram participar. Está no oportunismo político, venha ele de onde vier, na utilização de uma organização como instrumento de projeção pessoal, na exploração das divisões internas e na transformação da política num meio para alcançar benefícios individuais.

É esse comportamento que deve ser criticado.

Não são aqueles que discordam com lealdade, que questionam decisões ou que defendem convicções diferentes. O verdadeiro problema está em quem utiliza o partido ou a função pública como instrumento pessoal, alimenta divisões e transforma a política numa escada para alcançar objetivos próprios.

A política adulta faz-se de compromissos.

Mas compromisso não significa desistência de princípios.

Faz-se de cedências.

Mas ceder não significa perder identidade.

Faz-se de lealdade.

Mas lealdade nunca pode significar deixar de pensar.

Talvez seja precisamente isto que muitas vezes falta à política, perceber que é possível discordar e continuar juntos.

Que é possível ter posições diferentes sem transformar adversários internos em inimigos.

Que é possível chegar a um entendimento sem haver vencedores nem vencidos.

Que é possível exercer responsabilidades sem tentar controlar tudo à distância.

E que ninguém deve precisar de se ajoelhar para que todos possam sentar-se à mesma mesa.

Porque há uma diferença entre paz política e paz de conveniência.

A primeira constrói confiança.

A segunda apenas compra tempo.

Por isso, sempre que nos pedirem paz, unidade ou consenso, devemos estar disponíveis para construir.

Mas também devemos perguntar:

Com que princípios? Com que respeito? Com que responsabilidade? E a que custo?

Porque a paz vale muito.

Mas a dignidade, a autonomia e a liberdade de pensamento não têm preço.

Vitor Pereira, licenciado em Gestão Pública

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