Famalicão
Competitividade, a palavra de ordem de um mundo em guerra!
Competitividade é hoje, e será cada vez mais, uma das palavras de ordem dos próximos anos.
Já não falamos apenas de uma expressão económica, utilizada em conferências ou relatórios. Falamos da capacidade das empresas sobreviverem, crescerem, manterem emprego e conquistarem mercados. E falamos, também, da capacidade de Portugal preservar a sua autonomia económica num mundo profundamente instável.
Vivemos um tempo em que decisões tomadas a milhares de quilómetros das nossas fronteiras conseguem entrar rapidamente dentro das nossas empresas e das nossas casas.
As guerras fazem subir a energia, perturbam as cadeias de abastecimento, alteram rotas comerciais, encarecem matérias-primas e transportes, pressionam a inflação e acabam por afetar investimento, emprego e rendimento.
Esta é talvez uma das maiores crueldades económicas das guerras: são decididas por poucos, mas as suas consequências acabam pagas por milhões.
Pagam-nas aqueles que perdem o emprego. Pagam-nas as famílias através dos preços. Pagam-nas as empresas quando veem aumentar os custos de produção. E pagam-nas, de forma ainda mais dramática, as populações diretamente atingidas pelos conflitos, através da pobreza, da fome e da destruição.
Portugal não controla estes acontecimentos.
Não decide o preço internacional do petróleo, não determina o rumo das grandes potências nem consegue impedir sozinho a fragmentação do comércio mundial.
Mas há uma coisa que podemos decidir: com que economia queremos enfrentar este mundo. E é aqui que entra a competitividade.
Portugal precisa de empresas capazes de produzir melhor, mais depressa e com maior valor acrescentado. Empresas capitalizadas, tecnologicamente evoluídas, com trabalhadores qualificados, acesso ao financiamento e capacidade para vender para o mundo.
E precisa igualmente de um Estado que perceba uma realidade elementar: quando uma empresa portuguesa concorre internacionalmente, concorre também com as condições que o seu próprio país lhe oferece.
Nesse domínio, têm sido tomadas algumas decisões relevantes.
Em 2026, a taxa geral de IRC desceu para 19%, estando prevista uma trajetória até aos 17% em 2028. Para as PME e empresas de pequena-média capitalização, a taxa aplicável aos primeiros 50 mil euros de matéria coletável passou para 15%.
O programa Acelerar a Economia definiu igualmente 60 medidas destinadas a responder a 20 desafios, incluindo capitalização e crescimento das empresas, financiamento, empreendedorismo, inovação, talento e sustentabilidade.
São instrumentos que procuram melhorar as condições para investir, produzir e competir.
Mas seria um erro acreditar que está tudo feito.
Não está.
A OCDE continua a colocar a produtividade laboral portuguesa cerca de 17% abaixo da média dos seus países membros e chama a atenção para as dificuldades das empresas de menor dimensão em matérias como investimento tecnológico, inovação e gestão.
A Comissão Europeia continua também a identificar obstáculos estruturais à competitividade portuguesa: carga administrativa, morosidade de licenciamentos, ineficiências na Administração Pública e na justiça, dificuldades das empresas em ganhar escala e níveis de inovação ainda insuficientes em muitos segmentos da economia.
É precisamente aqui que a discussão económica dos próximos anos se vai jogar.
Fiscalidade, energia, financiamento, qualificação, inovação, digitalização, inteligência artificial, rapidez dos licenciamentos e dimensão das empresas deixaram de poder ser analisados separadamente. Fazem todos parte da mesma equação, a capacidade de Portugal competir.
E esta discussão não é apenas portuguesa.
A própria União Europeia reconheceu que perdeu terreno relativamente a outras grandes economias. A Comissão colocou a competitividade no centro da sua agenda através da Bússola para a Competitividade, assente em três grandes desafios, fechar o fosso de inovação, avançar na descarbonização de forma competitiva e reduzir dependências estratégicas.
É também por isso que o próximo quadro financeiro europeu assume uma importância absolutamente determinante.
A proposta da Comissão para o Quadro Financeiro Plurianual 2028–2034, apresentada em julho de 2025, ascende a quase dois biliões de euros e coloca expressamente a competitividade entre os grandes eixos do futuro orçamento europeu. A proposta inclui um Fundo Europeu para a Competitividade, concebido para apoiar setores estratégicos, tecnologias críticas, inovação e a capacidade industrial europeia.
Não é uma mudança meramente financeira. É uma mudança de paradigma.
Depois de décadas em que os fundos europeus desempenharam um papel decisivo na construção de infraestruturas, na coesão territorial e na modernização do país, o ciclo que se aproxima coloca um desafio diferente: transformar cada vez mais investimento europeu em capacidade produtiva, inovação, tecnologia, energia competitiva, internacionalização e escala empresarial.
Para Portugal, esta será uma discussão essencial.
Os fundos comunitários não podem ser vistos apenas como uma oportunidade para executar despesa. O verdadeiro critério terá de ser o impacto que produzem na economia, quanto investimento privado conseguem mobilizar, quanta produtividade acrescentam, quantas empresas ajudam a crescer, quanto emprego qualificado geram e quanto aumentam a nossa capacidade exportadora.
É aí que estará uma parte importante da batalha económica dos próximos anos.
Portugal tem de estar preparado para aproveitar um quadro europeu em que competitividade, segurança económica, inovação e autonomia estratégica terão um peso crescente.
Temos de conseguir transformar financiamento europeu em fábricas mais modernas, processos mais eficientes, inteligência artificial aplicada à produção, novas tecnologias, eficiência energética, produtos de maior valor acrescentado e empresas com dimensão suficiente para competir internacionalmente.
Porque não basta distribuir fundos. É preciso transformar fundos em riqueza.
E essa transformação mede-se em produtividade.
Precisamos de ligar melhor universidades, centros tecnológicos e empresas.
Precisamos de formação profissional orientada para aquilo que a economia realmente necessita.
Precisamos de inteligência artificial, automação e digitalização dentro das nossas PME e da nossa indústria.
E precisamos de ajudar as empresas portuguesas a crescer.
Sobretudo, precisamos de compreender que uma empresa exportadora não é apenas uma empresa. É também um instrumento de soberania económica.
Quando uma empresa portuguesa exporta, entra riqueza no país.
Quando conquista um novo mercado, Portugal torna-se menos dependente.
Quando investe em tecnologia, aumenta a produtividade.
Quando cresce, cria emprego e melhores condições para aumentar salários.
Quando consegue vencer lá fora, fortalece Portugal cá dentro.
Conheço particularmente bem uma realidade industrial que vive todos os dias esta competição.
Quando uma empresa têxtil portuguesa apresenta uma proposta a um cliente internacional, esse cliente não pergunta quantos meses demorou um licenciamento, quanto custa a burocracia em Portugal ou quantas obrigações administrativas a empresa teve de cumprir.
Analisa preço, qualidade, inovação, prazo de entrega, serviço e confiança.
E escolhe.
É assim tão simples. E tão duro.
A economia mundial tornou-se ferozmente competitiva. Quem demora perde oportunidades. Quem não inova perde terreno. Quem produz demasiado caro vê reduzida a sua margem de sobrevivência. Quem não acompanha tecnologicamente arrisca tornar-se irrelevante.
É por isso que não podemos continuar a tratar a competitividade como um assunto exclusivo dos empresários.
Competitividade é política económica. É emprego. É salários. É exportações. É coesão social. É independência económica.
Num mundo pacífico, tudo isto já seria importante.
Num mundo marcado por guerras, protecionismo, disputas comerciais, energia instável e crescente competição entre grandes blocos económicos, torna-se absolutamente determinante.
Portugal não conseguirá impedir todas as crises que virão de fora. Mas pode preparar-se melhor para lhes resistir.
O verdadeiro escudo económico de um país também se constrói dentro das suas empresas, todos os dias, por empresários e trabalhadores que produzem, inovam, arriscam e exportam.
E o próximo ciclo de investimento europeu será uma oportunidade decisiva para perceber se conseguimos transformar recursos financeiros em verdadeira capacidade competitiva.
Competitividade deixou de ser apenas uma vantagem.
Num mundo cada vez mais imprevisível, é uma condição de sobrevivência.
E Portugal não pode dar-se ao luxo de ficar para trás.
Vítor Pereira, licenciado em Gestão Pública
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