Opinião
“É grave que a Câmara Municipal se sinta capaz de substituir os órgãos de comunicação social do concelho e use os recursos à sua disposição para o fazer.”
Artigo de opinião (*)
Chegou, esta semana, o jornal “efe”. Com ele, alastra-se o cinzento entre a comunicação institucional e a comunicação social. À primeira vista o aparecimento deste novo título, que substitui o Boletim Municipal, pode parecer inofensivo. Mas será assim tão inofensivo? Vejamos.
A Câmara Municipal de Famalicão explica que a publicação traz consigo as “últimas notícias sobre a atividade municipal”. Importa, antes de mais, recordar aquilo que parece ter ficado esquecido: o conceito de notícia. Ou seja, o “relato sobre um acontecimento atual e de interesse público, difundido pelos meios de comunicação social”, pode ler-se no dicionário.
É grave que a Câmara Municipal se sinta capaz de substituir os órgãos de comunicação social do concelho e use os recursos à sua disposição para o fazer.
E se há “notícias”, que substituem aquilo que outrora chamávamos de “notas de imprensa”, podemos também supor que há jornalistas? Naturalmente, credenciados?
Temos notícias em primeira mão, entrevistas, publireportagens e roteiros. Instala-se uma competição desleal. Fica difícil competir com recursos quase ilimitados. Ou terá um jornal local a capacidade de distribuir mais de 60 mil exemplares?
Como diz o minhoto Chico da Tina – anunciado em “primeira mão” pelo “efe” para a feira de Artesanato e Gastronomia -, num dos seus êxitos, “dizei, quantos sois? Nós aqui só somos dois”. Por momentos, quase podemos identificar alguma semelhança entre o gabinete de comunicação da autarquia e as redações dos jornais locais.
Podemos, e devemos, olhar também para a ficha técnica, onde se verifica que sete profissionais colaboraram na edição. Pelos jornais locais, a realidade é bem mais precária. Não é novidade que os jornalistas se viram forçados a ser polivalentes, acumulando as funções de paginadores, fotógrafos e editores. Não porque queiram, mas porque a realidade assim o obriga.
Dito isto, devemos analisar as causas. Os jornais locais, como todos sabemos, vivem das empresas da região. O jornal Opinião Pública, especificamente, manteve até agora a sua impressão semanal e temos a agradecer às empresas que sempre acreditaram no seu valor. No entanto, ao olharmos para o “efe” vemos que lá constam empresas sonantes da região, como a Vieira de Castro, Grupo ACA, ou Restaurante Pêga, por exemplo. E, para mim, pergunto: “Terão estas empresas interesse em estabelecer laços com a comunidade local através dos jornais locais, agora, depois destes mais de 60 mil exemplares?”.
Por último, mas não me parece menos importante, vemos rubricas como “Lés a Lés” ou “Á Conversa com…”, utilizados há vários anos pelos nossos órgãos de comunicação social. Aqui, surgem dois cenários possíveis: uma equipa de comunicação alheada ao que se passa à sua volta ou uma tentativa deliberada de apropriação. Fica no ar.
Uma Câmara não deve substituir o papel da imprensa independente. Não deve gerar confusão entre os leitores.
Como diz o minhoto Chico da Tina – anunciado em “primeira mão” pelo “efe” para a feira de Artesanato e Gastronomia -, num dos seus êxitos, “dizei, quantos sois? Nós aqui só somos dois”. Por momentos, quase podemos identificar alguma semelhança entre o gabinete de comunicação da autarquia e as redações dos jornais locais.
Dizem que cada um ocupa o seu lugar. Sim. Até que um ocupe o lugar de todos.
(*) Juliana Machado é jornalista e diretora de grupo na Voz On / Editave Multimédia.


