Opinião
Paços às escuras, luzes de Natal e outras ideias iluminadas
Sabia que a Hora do Planeta nasceu em 2007, em Sidney? Esta iniciativa, que se tornou um dos maiores movimentos ambientais do mundo, envolve ou pretende envolver toda a comunidade em torno da problemática relacionada com o consumo de energia e os impactos na nossa casa comum.

Este fim de semana, dia 28 de março, assistimos a mais um ato que pretende, simbolicamente, associar-se a este movimento mundial. O Município de Famalicão lançou um desafio a todos os famalicenses:”desligarem as luzes de casa e a pedalar pelo planeta”. Durante 1 hora, os Paços do Concelho ficarão às escuras como gesto de compromisso com a sustentabilidade.
Até aqui tudo estaria bem, se não soubéssemos que a ação não passa mesmo de um ato simbólico, a sustentabilidade não é o objetivo, mas antes a realização de um “boneco” para as redes sociais.
O que nos parece difícil de ignorar é o paradoxo quando olhamos para outros momentos do ano, em particular a época natalícia. Em 2025, por exemplo, foram ligadas cerca de quatro milhões de luzes espalhadas pela cidade e pelas vilas.
Além da discussão financeira que podemos levantar, é sobretudo uma questão de coerência. O município que diz promover a eficiência energética é aquele que, ao mesmo tempo, compete com outros para ver quem cria o Natal mais vistoso.
“Não será possível investir na dinamização económica sem entrar numa lógica de competição luminosa entre municípios? “
Não se trata de acabar com o Natal, nem de defender a cidade e as freguesias às escuras. Trata-se de procurar equilíbrio. Não será possível manter a magia sem excessos? Não será possível investir na dinamização económica sem entrar numa lógica de competição luminosa entre municípios? Será assim tão estranho conciliar tradição com responsabilidade? Poderá Famalicão investir em soluções mais eficientes?
O que está em causa é a consistência das políticas e das mensagens. E esta consistência ou a falta dela, facilmente se revela. O município que incentiva a “pedalar pelo planeta” é aquele que não instala paineis solares nos edifícios públicos – veja-se a obra da central de camionagem, do mercado municipal, ou, até, da biblioteca municipal -, não cria ciclovias interligadas, prioriza o acesso automóvel, destroi o património arbóreo, não protege reservas nacionais (ecológica e agrícola)…
A sustentabilidade não pode ser pontual. E, em Vila Nova de Famalicão, como em tantas outras cidades, talvez esteja na altura de passar do simbolismo à ação concreta. Pois, é isso que distingue a verdadeira sustentabilidade do ambientalismo de fim de semana.
Sandra Pimenta é membro do Pessoas-Animais-Natureza (PAN)
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