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Opinião

Tipo pavão

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Por Domingos Peixoto

Uma espécie de turba informativa concentrava-se em frente a um edifício moderno integrada numa zona nobre da capital. Enquanto aguardava pela hora marcada para o início da resposta a todas as dúvidas, ou talvez não, conjeturava sobre quem apareceria ou não para ocupar lugar na s primeiras filas da assistência à leitura da decisão instrutória.

Começou a movimentação, a pequena mole dirigiu-se a toda a pressa e sofregamente para a alameda, na esperança do melhor e mais próximo lugar para interrogar e tentar “uma caixa”, quem sabe uma bomba, de última hora da personagem mais falada por esses dias.

Caminhava seguro, altivo, brilhante como só certas pessoas conseguem ser, aperaltado num amplo espaço que se proporcionava à maior visibilidade.

Quando se encontraram frente a frente turba e personagem esta, palma das mãos em sentido de paragem e afastamento, exclama: distância de segurança, segurança; uma e outra vez! Aparentemente “obtido o sossego”, o lutador faz uma proclamação no sentido da sua total inocência, pronto e presente para “desmontar a cabala, a mentira, a narrativa, a perseguição jornalística e outras que durante 7 anos estavam montadas para o destruir”…          Finda a declaração solene e perentória os elementos da comunicação social tentaram a uma só voz colocar perguntas, mas ainda não era o tempo das respostas. Sócrates encaminha-se, por entre eles, com algum custo para o interior do TCIC (Ticão).

À hora marcada o sereníssimo juiz Ivo começa a ler a súmula de cerca de 4 horas do despacho da decisão contido em 6.728 páginas!

Aparentemente, e fala alguém quase leigo na matéria, esta fase da justiça, a instrução do processo, requerida pelos arguidos é tão importante como qualquer uma das outras. Porém, este megaprocesso tem muitas particularidades, desde logo pelo grupo de pessoas importantes envolvidas na acusação. Mas o mais mediático – e asqueroso, também – foi a detenção em direto nas televisões no aeroporto, em 2014.11.21, do principal arguido. Seguiram-se violações constantes do segredo de justiça e a prisão preventiva do anterior primeiro-ministro com o argumento do perigo de fuga, 3 dias depois da detenção. E logo no dia 25 já há inquérito por violação do segredo de justiça, que nunca deu em nada e continuou!

Não morro de amores por José Sócrates e, por aqueles dias conturbados para ele e para a justiça, escrevi neste espaço que “não ponho as mãos no fogo por Sócrates!”. O que me causou alguns dissabores…

Sempre defendi e continuo a defender a justiça – sei bem e senti na pele o que é estar 5 anos na expectativa da “eventual desgraça” -, na sua independência do poder político e no cumprimento de todas as fases. Não significa que pense que “somos todos iguais perante a justiça”. Nós somos mas não temos, todos, os mesmos meios.

No caso em apreço fez-se uma condenação na “praça pública”, alegando-se indícios e factos profusamente divulgados na comunicação social como verídicos que, em fase de inquérito e acusação tiveram procuradores e um juiz que os validaram, que levaram uma grossa fatia da população a formatar a convicção de que se estava perante um dos grandes criminosos do colarinho branco!

Na fase seguinte da justiça, como já se disse, tão importante como a anterior e as posteriores – e temos que aguardar por muitas outras decisões, polémicas, certamente – chegou um juiz que tinha “obrigação e dever de independência” de analisar e decidir o que “tinha pernas para andar e o que ficava pelo caminho”. Decidiu e segue-se o recurso para a Relação. Aguardemos

Entretanto, a alegada onda de indignação dos que já tinham formulado a condenação estrebucha e o debate continua muito aceso.

Continuo a não por as mãos no fogo por ninguém, mas não sou ingénuo, tão pouco, sectário. Parece que já fui, mas nunca tipo pavão!

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