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Opinião

Defesa, paz e realismo: como decidir num mundo imperfeito?

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Quando assisto à organização de eventos públicos subordinados a temas como ‘oportunidades de negócio na defesa’, não consigo deixar de refletir sobre que defesa falamos e para quem é dirigido este evento. Famalicão quer lucrar com a guerra?

Painel “Oportunidade de Negócio na Defesa” organizado pela Câmara de Famalicão no âmbito do 6º Fórum Económico

Vivemos num cenário internacional cada vez mais tenso, com líderes como Donald Trump, Vladimir Putin ou Benjamin Netanyahu a marcarem o ritmo de decisões que amplificam conflitos e instabilidade.
Sabemos que a indústria militar continua a ocupar um lugar central nesse debate. E é aqui que emerge uma questão ética incontornável: que tipo de indústria estamos dispostos a sustentar — e com que limites? Não se trata apenas de capacidade estratégica, mas de responsabilidade política e principalmente, moral.
A exportação de armamento para contextos de conflito ativo levanta dilemas que não podem ser ignorados por quem defende uma política externa assente nos direitos humanos. Quando o lucro depende, direta ou indiretamente, da perpetuação de conflitos, a linha entre defesa e oportunismo torna-se perigosamente ténue. Paralelamente, também sabemos que não se derrubam regimes autoritários pela força das armas.

Assim, é fundamental não perder de vista o papel das instituições multilaterais. A Organização das Nações Unidas, apesar das suas limitações, continua a ser um dos espaços de diálogo global. Por isso, e num tempo marcado por lideranças mais agressivas e menos cooperantes, não pode continuar a ocupar lugar secundário, pois é precisamente nesses momentos que a sua existência se revela indispensável.
Há, porém, uma dimensão mais profunda que, raramente, entra no debate sobre defesa: a relação entre recursos e conflitos. A competição por recursos escassos — naturais, energéticos ou tecnológicos — permanece uma das principais fontes de tensão global. Enquanto persistir um modelo económico assente na exploração intensiva e desigual desses recursos, o risco de conflito continuará latente.
Talvez por isso a discussão sobre defesa não possa ser dissociada de uma reflexão mais ampla sobre o modelo de desenvolvimento que queremos.
Construir paz não é apenas evitar guerras; é reduzir, de forma estrutural, as condições que as tornam prováveis.
Por isso, quando assisto à organização de eventos públicos subordinados a temas como “oportunidades de negócio na defesa”, não consigo deixar de refletir sobre que defesa falamos e para quem é dirigido este evento.
De certeza não é para o público em geral, atendendo ao dia e horário do mesmo.
Assim, reforça a reflexão: a quem importa este evento? A quem se dirige? Estaremos a falar de defesa, no sentido de melhorar as condições das forças de segurança internas? Ou, Famalicão quer lucrar com a guerra?
Num concelho com tantos desafios — climáticos, sociais, económicos — seria, na minha perspetiva, muito mais útil recentrar o debate noutras prioridades: como gerar oportunidades para combater as alterações climáticas, como adaptar o tecido empresarial aos riscos ambientais crescentes, ou como reforçar respostas sociais para as populações mais vulneráveis.
Porque, no fim, a questão não é apenas que economia queremos promover. É que futuro estamos dispostos a construir.
Pois, a defesa que necessitamos hoje é, mais do que nunca, a defesa da liberdade. E esta pode revelar-se de diferentes formas e em diferentes contextos.

Sandra Pimenta é membro do Pessoas-Animais-Natureza (PAN)

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