Opinião
Fora de Frequência: “Quando os decisores se esquecem da sua verdadeira profissão”
Diz-se, na gíria da rádio, que um emissor está fora de frequência quando o sinal se perde no éter, mastigado pela estática, incapaz de entregar ao ouvinte aquilo que realmente importa: a música límpida ou a notícia exata. Olho para o debate público contemporâneo, para aquilo que os políticos decidiram rebatizar de “comunicação”, e a sensação é precisamente essa. Estão fora de frequência. Desafinaram o dial do mundo real.
Gerir, hoje em dia, transformou-se num exercício de cosmética. Não se governa para resolver; governa-se para a fotografia. Há uma obsessão doentia pela perceção, uma pressa em sinalizar virtude que atropela a eficácia mais elementar. Enquanto quem está no terreno se esfola para pagar salários, honrar compromissos com fornecedores e manter as portas abertas — seja numa fábrica de têxteis ou numa oficina —, a classe política parece viver num estúdio de televisão permanente. Debatem o sexo dos anjos com uma iluminação impecável, indiferentes ao facto de o país real estar a tentar sobreviver à próxima fatura e tudo isto à nossa custa.
O problema não é os políticos comunicarem muito; é comunicarem no vazio. O que hoje nos vendem como “estratégia de marketing político” é, na verdade, um ruído ensurdecedor destinado a tapar a incompetência de gestão. É o truque de ilusionismo clássico. Aponta-se o holofote para a causa fraturante do dia, acende-se o interruptor da polémica identitária e, entretanto, as urgências dos hospitais continuam entupidas, a burocracia asfixia as pequenas empresas e a carga fiscal encarrega-se de limpar o que sobra.
Como assim? Pensavam mesmo que não percebíamos a manobra?
Gerir um projeto de comunicação social livre, que inclui jornal, rádio e televisão, ensina-nos uma lição brutal de humildade que nenhum assessor de imagem consegue ensinar: se o conteúdo for mau, o público desliga. Muda de estação, fecha o jornal, clica noutro portal. Há uma triagem natural feita pelo mercado e pelo respeito de quem nos consome. Na política, infelizmente, o modelo de negócio é outro. O contribuinte é obrigado a pagar o bilhete quer o espetáculo seja bom, quer seja uma palhaçada monumental. Talvez por isso os nossos decisores se tenham esquecido do que é a sua verdadeira profissão: servir, gerir com rigor e apresentar resultados palpáveis. O resto é fumaça.
O jornalismo e a oposição têm papéis distintos, convém não confundir as águias com os perdigueiros. Não compete ao jornalista fazer oposição por desporto, mas compete-lhe, sem dúvida, pôr o dedo na ferida sempre que o poder tenta passar gato por lebre.
Esta rubrica nasce com esse propósito humilde, mas teimoso: sintonizar de novo a estação na frequência da realidade. Sem filtros de Instagram, sem comunicados de imprensa pasteurizados a ditar o guião e sem medo de ferir suscetibilidades.
Ficamos combinados assim. Periodicamente, neste espaço, tentaremos limpar o ruído de fundo da propaganda e olhar para os factos com os olhos de ver e ouvidos de tísico.
Se o sinal falhar, avisem.
Arcindo Guimarães é locutor de profissão e diretor de programação da Fama Rádio e Televisão
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