Opinião
Roteiro pela Realidade: Entre hotéis de luxo, o “resort” dos patos defuntos, o vulcão da Portela e um “airbnb” de tráfico e consumo
Há um fascínio epidémico que tomou conta do Portugal autárquico: o das chamadas indústrias criativas. De norte a sul, com paragem obrigatória nos gabinetes mais hiperativos da nossa região, as assessorias de comunicação camarárias transmutaram-se em autênticas produtoras de audiovisuais. Descobriu-se, entre o marketing territorial e o deslumbramento institucional, um filão de ouro: usar as suas personagens principais como cicerones de luxo do investimento privado, elogiando o requinte de hotéis de charme em reels filtrados até à exaustão.
O fenómeno do “político influencer” é fascinante. Ele já não precisa de estar no gabinete a despachar processos, a ouvir os munícipes ou a resolver os problemas estruturais da população; não que prefira o teletrabalho, mas porque estar na rua, de microfone na lapela, a aceitar de forma dócil todo e qualquer papel que o seu departamento de comunicação lhe escreve é bem mais desafiante. Sob o pretexto do apoio à economia local, cede os canais oficiais do município para oferecer publicidade gratuita a empresas privadas. É uma benfeitoria extraordinária. Afinal, com o município a fazer o papel de agência de publicidade a custo zero, que incentivo têm estas unidades de turismo para investir nas televisões, jornais e rádios da região? Nenhum. E todos nós sabemos — valha-nos a ironia — como os órgãos de comunicação social são estruturas ricas, sumptuosas, que vivem na abundância e podem perfeitamente dispensar este tipo de receita publicitária.
É a governação convertida em entretenimento digital efémero, paga com o dinheiro dos contribuintes. Mas a realidade, essa incómoda vizinha que teima em não usar filtros de saturação, tem o péssimo hábito de rebentar com a bolha.
O novo “resort” da Avenida 25 de Abril
Se os criativos municipais quisessem diversificar o roteiro turístico do concelho, podiam incluir uma nova paragem, a escassos metros do Parque 1º de Maio (já lá vamos ao “hotel dos patos”). Na Avenida 25 de Abril, mesmo no coração do burgo, há um terreno privado, que serve de parque de estacionamento de viaturas da Câmara, que inclui um armazém devoluto que se transformou num “resort” de contornos bem mais sinistros: um antro de tráfico e consumo de droga que esmaga o quotidiano de lojistas e moradores, hoje denunciado pela Famatv.
Aqui, a ironia atinge o requinte do absurdo. O terreno é privado, mas serve atualmente de parqueamento para viaturas do próprio Município de Famalicão, mais especificamente afetas à divisão do Ambiente. Um empreendimento do tipo “arbnb” partilhado, portanto.
Do vulcão da Portela ao Lago dos Patos
Enquanto se gastam cartuchos a promover o idílio rural, justamente na mesma freguesia e na vizinha Portela, a população vive fustigada por explosões de uma pedreira que, no relato desesperado dos moradores, fazem o cenário parecer um “vulcão em erupção”. Onde está a câmara (de filmar) municipal para registar o tremor de terra e a poeira que sufoca os cidadãos?
Mas o pânico do poder atinge o seu expoente máximo quando a objetiva não pertence ao guião oficial. Bastou a comunicação social independente denunciar o abandono do Lago dos Patos para que a máquina municipal saltasse da cadeira e enviasse, a correr, uma equipa de limpeza no dia seguinte.
Quando a equipa de reportagem da Fama Rádio e Televisão se deslocou ao local para registar o espaço a ser finalmente limpo, houve funcionários camarários que perderam a postura. Confrontados com uma câmara livre, avançaram para a agressão verbal, para o insulto e para a tentativa de travar o trabalho jornalístico.
Em suma, adoram a lente quando ela serve para lisonjear; odeiam-na e atacam-na quando ela testemunha o que não interessa.
Ainda vamos a tempo
Gerir um território não é produzir conteúdos para o Reels nem brincar aos influenciadores digitais enquanto a comunidade treme com as explosões, convive com o tráfico ou aves mortas num lago repleto de boas memórias para o cidadão que agora passa por ele cabisbaixo e envergonhado. Exige-se maturidade para enfrentar os problemas de frente. Podem continuar a ensaiar o vosso idílio ficcional, mas também têm como opção a de desligar os telepontos, de arquivar os guiões publicitários e de começarem a olhar de frente para o concelho real.
Arcindo Guimarães é locutor de profissão e diretor de programação da Fama Rádio e Televisão
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