Opinião
Ao beber água em Bruxelas, Lisboa ou em Famalicão, lembrem-se sempre da nascente
Quem bebe água deve reconhecer a nascente de onde ela vem. Na política, como na vida, ninguém chega sozinho. Há sempre uma origem, um percurso, pessoas e estruturas que abrem caminho. Ignorar esse facto é desconsiderar a realidade e empobrecer o debate.
Vários políticos cresceram com Armindo Costa e hoje exercem responsabilidades internacionais, nacionais ou locais. Os cargos mudam, mas a obrigação de reconhecer o percurso que nos trouxe até aqui permanece. Há partidos, dirigentes, militantes, autarcas, amigos e cidadãos que acreditam, apoiam e arriscam. Quem beneficia desse percurso deve ter a humildade de reconhecer a sua origem e o respeito de não a desvalorizar.
A política deve ser um espaço de confronto de ideias, de exigência e de responsabilidade. Não pode transformar-se num palco de vaidade, arrogância ou amnésia seletiva. Quem procura apresentar-se como obra exclusiva de si próprio não reforça a sua autoridade, fragiliza-a. A gratidão nunca diminui ninguém. A sobriedade e o reconhecimento, pelo contrário, fortalecem a credibilidade.
Falo também de mim. Não fui vereador porque não quis. Renunciei ao cargo e à respetiva Medalha de Mérito, que foi atribuída no dia da Cidade aos ex-vereadores do executivo cessante. Não continuei, até ao momento, em cargos públicos porque também não quis. Foram decisões difíceis, mas livres, conscientes e assumidas. Saí porque entendi que há valores que estão acima de qualquer função.
Na vida pública existe uma linha que nunca deve ser ultrapassada, a da dignidade. Os cargos passam, os mandatos terminam, os títulos perdem brilho. O caráter, esse, permanece.
É por isso que, quando vejo responsáveis políticos agirem como se tivessem surgido do nada, sem história, sem apoios e sem qualquer dever de reconhecimento para com quem lhes abriu caminho e lhes deu as primeiras oportunidades, considero essencial recordar que a memória é uma obrigação, a gratidão é um dever e o caráter se revela precisamente quando chega a hora de reconhecer quem esteve na origem do nosso percurso.
O Presidente da Câmara, Mário Passos, decidiu não acompanhar a indicação de voto aprovada por unanimidade pela Comissão Política Concelhia do PSD relativamente à proposta de homenagem a Agostinho Fernandes e a Armindo Costa. Fê-lo apesar de ter construído todo o seu percurso político sob a confiança e o apoio do mesmo partido. Na política, ninguém é obrigado a concordar sempre. Mas quem escolhe afastar-se das decisões coletivas deve assumir as consequências dessa opção com frontalidade e sentido institucional.
Também não é possível ignorar um padrão. Ao longo dos anos, Mário Passos entrou em conflito com sucessivas lideranças da Comissão Política Concelhia do PSD, Fernando Costa, Sofia Fernandes e, agora, Paulo Reis. Mudam os presidentes, mudam os protagonistas, mas os desencontros repetem-se. Quando isso acontece, é legítimo perguntar se o problema estará nas lideranças ou em quem, de forma recorrente, entra em divergência com elas.
Perante estes factos, muitos perguntarão se Mário Passos não estará a preparar o caminho para uma candidatura independente em 2029. Essa é uma interpretação política que cada cidadão fará.
Mas uma coisa é certa, quem durante anos beneficiou da confiança de um partido e hoje desvaloriza o seu papel tem o dever de explicar aos eleitores quando e porquê mudou de convicções.
Os famalicenses merecem clareza. Merecem saber quem está por convicção e quem está apenas por conveniência. Merecem saber quem honra os compromissos assumidos e quem os abandona quando deixam de servir os seus interesses.
Ao beberem água em Bruxelas, em Lisboa ou em Vila Nova de Famalicão, lembrem-se sempre da nascente. É da origem que vem a legitimidade, é da memória que nasce a confiança e é da coerência que se constrói a autoridade moral. Quem esquece a sua nascente pode até manter-se em funções por algum tempo, mas perde a base que sustenta qualquer projeto político.
Por isso, em 2029, quando chegar o momento de decidir o futuro de Famalicão, não serão os slogans, nem as operações de imagem, nem as declarações de coragem que falarão mais alto. Falará a memória dos famalicenses. Falará a coerência. Falará a gratidão. Falará o caráter.
As eleições ganham-se nas urnas, mas a legitimidade constrói-se ao longo de uma vida.
A memória pode demorar, mas nunca prescreve. E, em 2029, será a memória dos famalicenses a escrever a última palavra.
Vitor Pereira é licenciado em Gestão Pública
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