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Opinião

Temos uma medalha para ganhar, Famalicão

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Enquanto território habitado, a cidade é um corpo vivo e merece a atenção diária de todos
os que nela vivem. Ser cidadão por inteiro obriga-nos a cuidar dela, a procurar melhorá-la,
a participar nos movimentos e dinâmicas sociais que a defendam e valorizem. Assim,
cresceremos em bases mais sólidas, individual e coletivamente. E desta forma será mais
fácil cada um de nós aprender a moldar a sua cidadania.
É por isso que o “Dia da Cidade”, que na última quinta-feira Vila Nova de Famalicão
festejou pela 41.ª vez, é, simultaneamente, uma celebração e uma convocatória.
Acontecendo uma única vez no ano, serve para a comunidade famalicense dar lustro à
sua autoestima coletiva. Há medalhas, festa, bolo, espumante e canta-se os “parabéns a
você”. E os famalicenses gostam de festa. É um facto.
No caso, esta festa – a festa da cidadania famalicense – justifica-se plenamente, tanto
mais que não foi à primeira que Famalicão e os famalicenses viram publicada no “Diário
da República” uma lei, com um único artigo, que nos veio fazer justiça e colocar o
concelho no mesmo patamar político-administrativo onde há séculos estavam Braga,
Guimarães e Barcelos. “A vila de Vila Nova de Famalicão é elevada à categoria de
cidade”. Estes 52 caracteres abriram portas a alterações profundas no território,
acariciaram a nossa autoestima coletiva, aceleraram a mudança de mentalidades e
impactaram os padrões de vida da nossa comunidade, nomeadamente nas freguesias
mais ruralizadas.
Estávamos em 1985, num concelho onde água e saneamento público eram uma quasedádiva para privilegiados, e, de repente, éramos cidade. Tiques de novo-riquismo
paroquial à parte, todos queríamos ser e viver a cidade.
Foi um tempo de descoberta de pouca dura.
O ‘upgrade’ do nosso estatuto político-administrativo não foi nenhum favor que nos
fizeram. Foi consequência do crescimento demográfico assinalável que Famalicão, então
um dos concelhos mais jovens do país, registava e da empresarialização de uma geração
de antigos operários da indústria têxtil que, fazendo-se à vida, arriscou em pequenas confeções e unidades familiares a trabalhar a feitio para as grandes marcas europeias
que iam chegando a Portugal.
A grande maioria dessas micro e pequeníssimas empresas de autoemprego aguentou
pouco tempo, tanto mais que, na década seguinte, aconteceu a grande crise têxtil do vale
do Ave. Mas teve um papel importante na renovação e rotação de empregos, na
expansão urbanística de várias freguesias e, sobretudo, na afirmação de uma nova
geração de empresários locais – algumas empresas então criadas, nesse contexto
desafiador, dão hoje cartas nos mais exigentes nichos de mercado da fileira têxtil.
A maioria, porém, sucumbiu. A qualidade e a capacidade de resposta, a insuficiente
formação e o mercado, com a globalização e o refinamento tecnológico, vieram colocar
pesadas dificuldades a esses empresários que se fizeram no chão de fábrica. Mas, o seu
contributo para a afirmação e projeção da cidade e, sobretudo, da marca Famalicão alémfonteiras é indesmentível.
Este foi a primeira ideia-força que retive da sessão solene deste 9 de julho, na Casa das
Artes. Um município que é capaz de harmonizar, na sublimação dos respetivos méritos
empresariais, a líder de uma multinacional como Isabel Furtado, com assento na elite
portuguesa da gestão e da inovação produtiva, e o percurso, por exemplo, de uma marca
gastronómica tão singular como a Churrascaria Lafões tem futuro.
Mais: como disse a CEO da TMG, Famalicão tem tudo o que uma cidade média europeia
precisa para proporcionar bem-estar e qualidade de vida aos cidadãos e às famílias que
nela vivem. Basta que quem a governe tenha uma visão estratégica para o território e as
pessoas, que combine progresso e sustentabilidade e uma gestão criteriosa dos recursos
com investimentos que resultem em ganhos sociais, culturais e económicos para a cidade
– isto é, para toda a comunidade famalicense. Foi escutada?

No meio das 51 medalhas entregues – a 52.ª está prometida à ex-vereadora e atual
deputada à Assembleia da República Sofia Machado Fernandes, que politicamente falou
optando pela ausência –, houve um cidadão famalicense de excelência cujo nome me é
particularmente grato aqui registar: Henrique Jorge Leite Guimarães Mesquita, chefe
do quadro de honra dos Bombeiros Voluntários de Famalicão.


O “Rique”, rapaz da minha geração, foi um dos 19 “soldados da Paz” do concelho
distinguidos com a Medalha de Mérito Municipal de Benemerência. É um caso raro de
devoção aos bombeiros e ao voluntariado e protagonizou, que eu saiba, uma
transferência histórica entre as duas principais associações humanitárias do concelho: há
uns anos atrás, por razões que me escapam, abandonou, com o coração partido, os
quadros dos Famalicenses, para onde tinha entrado ainda jovem, e foi alistar-se nos de
Famalicão. Um “guita”, ainda por cima da família de Amadeu Mesquita, um dos principais
fundadores da corporação, a passar-se para os “de baixo”?!!! Quando me contaram, fiquei
incrédulo…
O que é facto é que a mudança aconteceu, sem grandes sobressaltos, e o “Rique”
acabou por deixar uma marca impressiva nos Bombeiros de Famalicão, honrando um
património familiar altruísta e de serviço desinteressado à comunidade.
É do exemplo, da determinação, da capacidade de trabalho e da força criativa de
mulheres e homens como Isabel Furtado, José Agostinho Correia e Henrique Jorge
Mesquita que se engrandece a cidade. É com o contributo de cidadãos desta envergadura que Famalicão pode progredir. Ou seja: aprofundando a cidadania de quem cá vive e dos
famalicenses que, circunstancialmente afastados, são passageiros residentes de um
território que acelerará o seu desenvolvimento quanto mais se abrir ao mundo.
É para essa tarefa que a cidade todos os dias nos convoca: participar, intervir, procurar
fazer melhor.
Sendo cidade de pleno direito há 41 anos, temos de continuar a fazer crescer a
democracia local e de ganhar a medalha da cidadania plena, onde não há caça às bruxas
nem retaliações à diferença de opiniões, se quisermos elevar a cabeça dos cidadãos
famalicenses. Então, ficaremos mais próximo do topo.

Carlos de Sousa

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