Connect with us

Opinião

As nossas andorinhas

Imagem do avatar

Publicado há

em

Desde que rabisco, que gosto de desenhar andorinhas.

No princípio, um éne estilizado e elas escapavam-se-me, aos bandos, das folhas de papel cavalinho. Acabavam por nidificar ou no tampo da carteira ou na face mais rugosa da prancheta de tabopan com que a saudosa professora Ercília Ramos nos tentava convencer ser sela indispensável na arte de bem desenhar toda a folha.

Mas, passada a fase da representação pueril da ave migratória mais bonita que temos em Portugal, rendi-me às suas notáveis capacidades: uma apurada visão panorâmica durante o voo, uma performance aerodinâmica invejável e, sobretudo, o conhecimento que acumula sobre os territórios onde nidifica. E como são tecnicamente engenhosos alguns ninhos de andorinha! Atente-se naqueles que as espécies que nidificam junto aos rios e ribeiros escavam em taludes de terra arenosa: é obra.

Há ninhos construídos em beirais de casas e umbrais de portas e janelas que são verdadeiros casos de engenharia (a espécie andorinha-dos-beirais faz mais obra do que “Bob, o Construtor”, de certeza, e não tem tanta fama). 

É digno de aplauso, por isso, que nos 27 países da União Europeia a andorinha seja um animal protegido por lei e que a destruição dos seus ninhos seja proibida. Assegurando-lhe casa, estamos a renovar o convite para que esta ave dada a viagens de muitas milhas volte sempre, ano após ano. 

Mesmo que a esperança média de vida não vá além dos oito anos, dizem os entendidos, as andorinhas não se podem queixar muito de terem nascido. Há plumagens dignas da mais vistosa alta costura; dispensam oftalmologista e óculos e, mesmo assim, veem melhor do que qualquer piloto de um caça em ação na guerra do Médio Oriente; cantam que nem Pavarotti ou Maria Callas; são de uma fidelidade à prova de bala no acasalamento e há muito que renunciaram à guerra de sexos no que toca à construção do ninho, incubação e alimentação das crias. E são de fácil sustento, já agora: comem predominantemente insetos quando voam e fazem voos rasantes sobre planos de água, como rios, lagos e até piscinas, para beber água.

  • A nossa “Andorinha” aprisionada

Está visto: temos muito que aprender com as andorinhas. 

Lamentavelmente, elas ainda não falam – nem votam. E se tivessem essa faculdade com que o Criador privilegiou o Homem?

(Em Famalicão, por exemplo, podiam contribuir para vocalizar o protesto de muitos famalicenses ciosos do seu património cultural, ofendidos pelo desaforo que constitui a inexplicável retenção da histórica locomotiva a vapor “Andorinha” no Entroncamento.

Em 2019, por protocolo celebrado entre Fundação do Museu Nacional Ferroviário, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de Nine, em cuja estação a locomotiva a vapor CP 02049 esteve parqueada desde 2002, a “Andorinha” desceu até à “terra dos fenómenos” para ser restaurada. Foi com “uma volta na ponta”, porém, para, concluída que estivesse a intervenção, engrandecer o espólio do Núcleo de Lousado do Museu Nacional Ferroviário.

Acontece que, até agora, a “Andorinha” fez ninho no Entroncamento e de lá não mais saiu.

Adiante…).

  • “Ser de Famalicão” sem ser “de ao pé da porta”

Em tese, até podia tentar dar resposta à pergunta, mas corria o risco de acabar só com duas ou três pessoas desse lado. Provavelmente, um ornitólogo, um otorrinolaringologista e um psiquiatra. Desisti cedo, portanto.

Optei por aproveitar o convite da Direção da Fama Rádio e Televisão para acordar o jornalista que tenho adormecido em mim. E é assim que, com as andorinhas a povoar o céu de Portugal por mais umas semanas, arranca neste primeiro dia de agosto um programa de autor tendente a refrescar o espaço mediático e a vida cívica famalicense –

pela mundividência, pela densidade de pensamento, pela diversidade dos caminhos e, sobretudo, pela sensibilidade do olhar dos Passageiros Residentes de Vila Nova de Famalicão que eu escolhi entrevistar daqui até final de 2027.

Durante cerca de meia-hora de conversa, proponho-me dar a conhecer (ou aprofundar) a história pessoal e o trajeto de vida dos famalicenses da diáspora (ou “da paisagem”, no entendimento pessoano), transformando o respetivo depoimento em contributo de melhoria para o futuro coletivo de Famalicão – territorial, social e culturalmente. 

Vou querer avaliar o que significa, hoje, “ser de Famalicão” sem ser “de ao pé da porta”. E saber se ainda há quem, ao longe, se comova quando alguém confronta um famalicense com a sua origem ou a sua identidade.

Camilo, implacável, tirou-nos o retrato. Mas, Pessoa (aliás, Bernardo Soares, no “Livro do Desassossego”, para ser rigoroso), meio século depois, entreabriu a porta a uma andorinha que já quase não voava, escrevendo que “A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”.

Quinzenalmente, aos mais desatentos, em particular, procurarei mostrar a riqueza humana que não cabe – já não cabe… – intramuros. Porque é mesmo verdade: de passagem, há quem viva por aqui. São os que têm o mundo no olhar. Desgraçadamente, não os temos levado a sério.

O primeiro a passar pelo Passageiros Residentes é o jornalista Tiago Barquinha Gonçalves, 28 anos, de Calendário, mas a viver na cidade. Faz todos os dias Famalicão-Porto-Famalicão porque gosta da profissão porque batalhou e a atualidade desportiva, que acompanha a par e passo, o obriga dividir os dias entre as redações da TSF e da SportTV.

Vale a pena escutá-lo. Pelo alento e pelo talento.

Parte 01:

Parte 02:

PARTILHE ESTE ARTIGO:

Mais vistos

error: Conteúdo protegido