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Opinião

Entre Astérix, Brutus e Júlio César, há momentos em que a política parece saída de uma banda desenhada

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White historic estate overlooking a mountain road and rocky countryside

O Governo procura governar, apresenta resultados e avança com reformas. O Chega encontrou na moção de censura mais uma oportunidade para contestar. E o Presidente da República acompanha o processo, aguardando o momento próprio para exercer as competências que a Constituição lhe confere.

Na metáfora de Astérix, o Governo representa a pequena aldeia gaulesa que procura preservar a sua autonomia num ambiente de pressão e disputa. Astérix simboliza a resistência de quem, apesar de cercado, mantém o rumo, toma decisões e responde pelos resultados.

O Chega pode ser associado a Brutus: uma força política que contesta a autoridade estabelecida e procura substituí-la. A comparação tem, naturalmente, limites. Numa democracia, a oposição é legítima e necessária. Uma moção de censura é um instrumento constitucional de fiscalização e responsabilização.

Mas há uma diferença fundamental entre contestar um Governo e estar preparado para governar.

É precisamente aí que reside a maior fragilidade do Chega. Critica, acusa e promete, mas nem sempre demonstra a coerência necessária para transformar a contestação numa alternativa. As posições mudam, os argumentos ajustam-se às circunstâncias e, quando chega o momento de assumir as consequências das decisões defendidas, a responsabilidade parece muitas vezes ficar para depois.

Governar exige mais.

Exige coerência, previsibilidade, capacidade de decisão e responsabilidade. Quem pede a confiança dos portugueses para governar não pode limitar-se a dizer aquilo que está mal. Tem de explicar o que faria diferente, quanto custaria, quais seriam as prioridades e, sobretudo, quais seriam as consequências das suas escolhas.

Uma moção de censura pode derrubar um Governo. Não constrói, por si só, uma alternativa.

É essa a questão que permanece sem resposta: o que faria concretamente o Chega de diferente?

Criticar é fácil. Governar implica enfrentar problemas, estabelecer prioridades, executar reformas, tomar decisões difíceis e responder perante os cidadãos.

É essa a diferença entre protesto e alternativa.

Nesta metáfora, o Presidente da República surge como Júlio César. Não como protagonista de uma guerra partidária, mas como símbolo da autoridade institucional, da estabilidade e do respeito pelas regras democráticas. Num Estado de direito, cada instituição deve cumprir o seu papel e cada decisão deve ser tomada no momento próprio.

A mesma exigência deve aplicar-se à política local.

Um Presidente de Câmara deve ser avaliado pelo que decide, pelo que constrói e, sobretudo, pelos problemas que consegue resolver.

Em Famalicão, essa avaliação deve ser feita com honestidade.

O atual Presidente da Câmara, o seu antecessor e o anterior ao antecessor resolveram muitos problemas do concelho e dos Famalicenses.

Estive sempre de acordo com eles?

Não.

Concordei com todas as suas decisões?

Naturalmente que não. Não uso palas.

Mas a divergência política não me impede de reconhecer a obra realizada. E a verdade é simples: Famalicão mudou muito nas últimas décadas.

Basta recuar ao início dos anos 2000.

Apesar da existência de importantes fundos comunitários para investimentos estruturantes, nomeadamente nas redes de distribuição de água e de drenagem de águas residuais, não me recordo de, nessa fase, o Partido Socialista ter protagonizado uma transformação significativa nessas áreas.

Na Educação, na Ação Social, na Juventude, no Desporto, no apoio ao movimento associativo, nas suas infraestruturas e nas próprias atividades, também se verificaram transformações profundas ao longo dos últimos 25 anos.

A mudança que recordo começou em 2002, com a entrada em cena da coligação Mais Ação Mais Famalicão.

Desde então, o concelho conheceu uma transformação profunda nas infraestruturas básicas, na rede viária e em muitas outras áreas decisivas para a qualidade de vida dos Famalicenses.

Não foi um processo perfeito.

Houve decisões discutíveis. Houve opções que poderiam ter sido melhores. Houve, seguramente, erros.

Mas afirmar que nada foi feito seria simplesmente negar a evidência.

E é aqui que a política precisa de maturidade.

Uma oposição que pretende governar deve saber reconhecer o que está bem, identificar aquilo que precisa de ser corrigido e explicar, de forma concreta, como faria melhor.

E, sendo claro, hoje não identifico, nem no PS nem no Chega, quem tenha demonstrado capacidade para fazer melhor.

Não basta prometer. Não basta criticar. Não basta explorar cada dificuldade como se fosse prova de fracasso.

É preciso apresentar uma alternativa credível.

Porque governar não é apenas denunciar aquilo de que não gostamos. É escolher prioridades, mobilizar recursos, executar, corrigir quando necessário e assumir as consequências das decisões tomadas.

É essa a fronteira entre derrubar e construir.

A democracia precisa de oposição.

Mas precisa, sobretudo, de alternativas credíveis.

Os cidadãos não escolhem apenas quem denuncia aquilo de que não gostam. Escolhem quem consideram capaz de governar, reformar, executar e assumir responsabilidades.

Nesta moção de censura, o Chega demonstrou vontade de derrubar.

Mas continua por demonstrar que tem capacidade para governar melhor.

E essa diferença não é pequena.

É precisamente a distância que existe entre a ambição de exercer o poder e a responsabilidade de estar preparado para o exercer.

Vítor Pereira, Licenciado em Gestão Pública

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