Opinião
Envelhecer sozinho, não deveria ser!
Vivemos mais anos. É uma das grandes conquistas da nossa sociedade. Mas viver mais não significa necessariamente viver melhor. Para muitas pessoas, envelhecer significa também ficar mais sozinho.
A solidão é um dos grandes problemas sociais do nosso tempo. Silenciosa, raramente abre telejornais, mas entra diariamente em milhares de casas. Há quem passe horas, ou até dias, sem conversar com ninguém.
Por isso, falar de envelhecimento não pode resumir-se a pensões, lares ou cuidados de saúde. É preciso abordar também a habitação, a autonomia, a proximidade e as relações humanas.
Uma das respostas passa pela habitação assistida, que permite às pessoas mais velhas manterem a sua autonomia, com o acompanhamento necessário. Entre viver sozinho em casa e ingressar numa estrutura residencial tradicional, deve existir uma terceira possibilidade.
Outra passa pela colaboração intergeracional.
França já criou a chamada coabitação intergeracional solidária. O princípio é simples, uma pessoa com 60 ou mais anos pode disponibilizar parte da sua habitação a um jovem com menos de 30, mediante regras e contrato próprios. O jovem encontra uma solução habitacional mais acessível, enquanto a pessoa mais velha ganha companhia e, dentro de limites definidos, pequenos apoios no quotidiano.
Não se trata de transformar jovens em cuidadores nem idosos em senhorios. Trata-se de juntar duas necessidades e transformá-las numa solução.
Este tema ganhou ainda maior atualidade em março de 2026, quando a Comissão Europeia apresentou a primeira Estratégia Europeia para a Equidade Intergeracional. O documento coloca a cooperação entre gerações no centro da resposta aos desafios demográficos e sociais da Europa.
É uma mudança importante de perspetiva. As políticas públicas não podem continuar a colocar jovens de um lado e idosos do outro. Devem criar condições para que diferentes gerações vivam, participem e cooperem mais entre si.
Portugal deveria aproveitar este impulso europeu e estudar soluções semelhantes.
Porque não criar uma rede de Habitação Intergeracional de Proximidade, envolvendo municípios, juntas de freguesia, IPSS, universidades e associações? Seria possível identificar pessoas mais velhas disponíveis para partilhar a sua habitação, encontrar jovens interessados, avaliar compatibilidades, estabelecer regras claras e acompanhar cada situação.
Assim, enfrentaríamos dois problemas, a dificuldade dos jovens no acesso à habitação e a solidão de muitos idosos.
Para isso, porém, é necessária proximidade.
E proximidade não significa criar mais gabinetes. Não precisamos de mais gente atrás de secretárias, precisamos de mais gente na rua, nas freguesias e nos bairros. Pessoas capazes de conhecer as comunidades, identificar necessidades e encontrar respostas antes de os problemas se transformarem em emergências.
Essa proximidade exige também transparência. Na área social, criar falsas expectativas pode ser particularmente injusto. Quem precisa de ajuda merece saber, com clareza, o que existe, o que pode ser feito e em que prazo.
Famalicão tem condições para experimentar respostas inovadoras. Tem instituições sociais, tecido associativo, juventude, universidades na região e uma cultura de proximidade que pode ser mobilizada. Não é preciso inventar tudo de novo. É necessário ligar melhor aquilo que já existe e ter coragem para experimentar novas soluções.
O desafio do envelhecimento não se resolve apenas com mais lugares para idosos. Resolve-se construindo uma comunidade onde ninguém deixe de ter lugar porque envelheceu.
A verdadeira política de proximidade começa talvez aí, não esperar que as pessoas batam à porta do Estado, mas garantir que a comunidade bate à porta de quem ficou sozinho.
Porque envelhecer é inevitável. Envelhecer sozinho não deveria ser.
Vitor Pereira, licenciado em Gestão Pública
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