Opinião
Efe de “fake”: Quando a propaganda veste a pele do jornalismo
Artigo de opinião (*)
Foi com surpresa recebido o anúncio da nova publicação bimestral da Câmara Municipal de Famalicão, o “efe”, que pretende “entrar em casa de todos os famalicenses”, tal como expressa o seu diretor, o presidente da Câmara Municipal de Famalicão, Mário Passos, no primeiro editorial.
Tal surpresa é criada, sobretudo pela apresentação de duas rubricas intituladas “Lés a Lés” e “À Conversa com”, duas designações utilizadas há vários anos pela Fama Rádio e Televisão para dois dos seus programas, o primeiro focado nos territórios, suas gentes e acontecimentos e o segundo dedicado às personalidades de relevo locais. Perante a suspeita de que esta nova publicação autárquica pudesse estar a tentar substituir os meios de comunicação, tal “apropriação” apresenta-se como uma das provas elementares.
Para além disto, estranha-se a missão auto imposta deste renovado boletim municipal em apresentar notícias locais “em primeira mão”, ou seja antes dos órgãos de comunicação social, algo que pode ser interpretado como uma tentativa de mostrar uma versão unilateral dos assuntos abordados, evitando o escrutínio da imprensa através de uma distribuição mais ampla e numerosa do que a conseguida pelos “jornais locais”.
E com isto, o que acontecerá a esses jornais agora que tal publicação municipal promete bater a cada porta usando como propulsor o orçamento municipal? Um pergunta que ganha um relevo ainda maior quando nos recordamos das dificuldades crescentes em termos de rentabilidade que atravessa a toda a imprensa, sobretudo a escrita em papel, e a sua batalha travada contra o isolamento, fazendo chegar a informação a todos aqueles que não têm possiblidade de trabalhar com as tecnologias modernas.
Resumindo: numa era marcada pelas “fake news”, qual será o alcance da imprensa e dos jornalistas se o trabalho efetuado por estes fica abafado pela presença de outras “comunicações” com meios mais musculados? E saberá a população distinguir entre o que é feito como forma de promoção e o que é feito como forma de informação isenta?
(*) José Barbosa é jornalista das plataformas digitais da Fama Rádio e Famatv .


