Opinião
Os jogadores e o matraquilho
*imagem gerada aleatoriamente por IA
Na política, como na vida, há quem confunda liderança com protagonismo. Há quem acredite que governar é estar permanentemente na fotografia, ocupar o centro de todas as decisões e concentrar em si próprio os méritos de cada conquista. No entanto, a realidade demonstra frequentemente o contrário, os melhores resultados surgem quando existe capacidade para ouvir, integrar e valorizar diferentes contributos.
A imagem do matraquilho ajuda-nos a compreender esta realidade. Num jogo de matraquilhos, os olhos tendem a seguir os avançados, aqueles que marcam os golos e recebem os aplausos. Porém, quem conhece verdadeiramente o jogo sabe que as vitórias começam muito antes da bola chegar à frente. Dependem da organização da equipa, do trabalho dos médios, da capacidade defensiva e, muitas vezes, daqueles jogadores menos visíveis que criam as condições para o sucesso.
Também na política existem os que gostam de aparecer e os que trabalham. Existem os que se preocupam com a imagem e os que se preocupam com os resultados. O problema surge quando a governação passa a ser dominada pelo culto da personalidade, pela autossuficiência e pela incapacidade de reconhecer o valor de quem pensa de forma diferente.
Uma democracia saudável exige precisamente o contrário. Exige abertura ao diálogo, respeito pela oposição, capacidade de escutar críticas e humildade para reconhecer que ninguém detém o monopólio das boas ideias. Quando os governantes se fecham sobre si próprios, quando ignoram opiniões divergentes e quando tratam qualquer crítica como uma perseguição ou um ataque pessoal, deixam de fortalecer as instituições e passam a enfraquecê-las.
A governação não pode transformar-se num exercício de vaidade. Não pode ser conduzida apenas para alimentar egos ou para garantir aplausos imediatos. Quem exerce funções públicas deve compreender que representa todos os cidadãos, incluindo aqueles que não votaram em si e aqueles que discordam das suas opções.
Os grandes líderes distinguem-se pela capacidade de construir pontes, não de erguer muros, como outrora era feito, havia a capacidade de se sentar com o pior “inimigo” e ter uma conversa normal. Sabem que o mérito não diminui quando é partilhado e que as melhores decisões raramente resultam de uma única visão. Pelo contrário, nascem da diversidade de opiniões e da capacidade de reunir diferentes sensibilidades em torno de um objetivo comum.
Tal como no matraquilho, também na política as vitórias não pertencem apenas aos que marcam os golos. Pertencem a todos os que contribuíram para o resultado final.
Ignorar esta evidência é um erro que mais cedo ou mais tarde acaba por ser penalizado pelos cidadãos. Porque numa democracia madura não existem jogadores dispensáveis. Existem pessoas, ideias e contributos que devem ser respeitados. E quando isso deixa de acontecer, o problema já não está na equipa. Está em quem insiste em jogar sozinho. Cuidado, porque 2029, é já ali!
Vítor Pereira é licenciado em Gestão Pública
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