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Famalicão

30 anos de sacerdócio: Entrevista ao Padre Artur Gonçalves

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O padre Artur Gonçalves assinala 30 anos de ordenação sacerdotal com um percurso marcado pela proximidade às populações e pela dedicação ao serviço público. 

Doutor em Teologia, capelão das Forças Armadas e pároco da comunidade de Lousado, Vila Nova de Famalicão, o sacerdote faz, em entrevista ao OPINIÃO PÚBLICA, um balanço de três décadas de missão, perspetiva o futuro dos projetos paroquiais e defende que o verdadeiro papel da Igreja passa por “construir pontes que nunca acabam de se construir”. 

OPINIÃO PÚBLICA: Assinalar 30 anos é significativo, até porque há muitas aprendizagens, há um caminho longo percorrido. Se pudesse voltar ao dia 21 de julho de 1996, o que diria a si próprio no momento da ordenação?

Pe Artur Gonçalves: Dizia: “não tenhas medo e avança”. Certamente. Claro que nesse dia estava bem mais nervoso porque é toda uma vida, é toda uma decisão e todo um chamamento a que nós vamos dizendo sim, mas naquele momento é o momento derradeiro. Recordo-me bem, que quando saí de casa, disse que nunca mais voltaria da mesma forma.

Claro, não voltaria a mesma pessoa…

Com outras responsabilidades, com outros encargos e e também com outros desafios e por isso certamente aquilo que eu dizia era “vai em frente”.

Mas há muitas alterações no Artur de há 30 anos atrás. Transformou-se em Padre Artur, a pessoa que hoje temos aqui…

Sim, sem dúvida alguma. São 30 anos na vida de uma pessoa e acho que com uma vida preenchida, com tantas solicitações, tendo estado em tantos lados, em tantas realidades tão díspares, claro que isso vai transformando a nossa vida. Vai-nos enriquecendo, vai-nos ajudando também a tomar decisões, certamente mais conscientes. Obriga-nos também a valorizar mais aquilo que é verdadeiramente importante e a relativizarmos tantas coisas que não são importantes.

A verdade é que há muitos párocos e sacerdotes que optam por levar uma vida mais tranquila, dedicados às suas paróquias. O Padre Artur é exatamente o oposto disso, é um homem com muitas vertentes, que quis estudar mais, é militar e já esteve fora do país, nomeadamente em missões. De todas estas experiências, que principais transformações sente que marcaram o seu sacerdócio?

Certamente que estes últimos 30 anos foram anos de muitas mudanças a nível mundial, a nível também da igreja e claro que isso vai-se repercutindo na história de vida pessoal. Nomeadamente com todas estas solicitações que fui tendo e os trabalhos que fui abraçando, quer a nível das paróquias onde servi – e servi em tantas -, também nas missões internacionais no Kosovo, nos vários quartéis militares onde estive… Também decidi aprofundar os meus conhecimentos e aprofundar os estudos. Acho que parar é morrer, não são só palavras bonitas. Quando perdemos a capacidade de nos deixar entusiasmar e surpreender pela vida, certamente começamos a ficar ultrapassados. E, por isso, sabemos que temos que pensar em novas formas. A mensagem de Jesus Cristo é a mesma há 2000 anos, mas a forma como a transmitimos tem que ser diferente porque as pessoas também são diferentes. Ou seja, claramente que as primeiras comunidades que eu tive há 30 anos não são as mesmas, não só geograficamente, é a evolução das pessoas, a cultura…

Também a forma como se colocam perante a religião…

As questões que colocam são diferentes. E se nós igreja e nós sacerdotes não tivermos esta perceção, certamente vamos perdendo o comboio da história.

E disso que teve receio e por isso nunca parou?

Sim, por isso é que senti também esta necessidade de estudar, de aprofundar para não ficar parado. O mais fácil era ficar acomodado naquilo que já sabia, naquilo que já tinha. Mas o meu desafio de vida nunca foi estar parado. O meu objetivo é o de melhor servir a igreja.

Chegou Lousado Famalicão há dois anos. Como tem sido esta integração na comunidade? Quais são as principais prioridades pastorais que identificou nesta paróquia?

Para mim, a vinda para Lousado foi realmente uma surpresa porque toda a minha vida, os 28 anos de sacerdócio, estive sempre do outro lado da diocese numa realidade social, económica, cultural, religiosa completamente diferente. E para mim um desafio enorme.

Quais são as grandes diferenças?

Este é um meio industrializado e isso transforma por completo quer a vida pessoal, quer social, quer religiosa.

É mais exigente?

Não digo que é mais exigente. É diferente. O contexto de onde eu sou natural e onde servi sempre a igreja, é a minha zona de conforto. Às vezes ainda me rio porque em Famalicão eu não conhecia quase nada. Para as coisas mais básicas, desde ir às Finanças, ir ao banco, tinha que andar de GPS na mão. Ou seja, obriga-nos exatamente a uma readaptação da nossa vida. Fui abraçando este projeto sempre numa colaboração muito estreita, escutando as pessoas, ouvindo e procurando que as decisões sejam tomadas sempre com o sentido de responsabilidade paroquial. Que todos possam ter voz e que todos possam participar nas decisões. Acho que isto é algo que é importante e que ajuda a um comprometimento das pessoas. Há também uma situação que estamos a trabalhar e que é a nível estrutural de um centro pastoral para o qual estamos a dar passos. Já temos um pré-projeto feito. É realmente uma necessidade que temos um espaço para formação, para catequese, um salão paroquial. Digamos que é o nosso grande projeto que temos agora em mãos.

Mas é um projeto, na sua opinião, exequível a curto prazo?

Eu gostava que fosse já para ontem. Não vai ser, até pelo valor previsto de 400 a 500 mil euros. Mas temos de ser ambiciosos até porque é uma paróquia em crescimento.

Mas esse centro pastoral é para nascer perto da igreja?

Nas traseiras da igreja. A paróquia tem um terreno 6.000 metros por trás da igreja, que até vai até quase até ao Rio Ave. A ideia é implantarmos ali. Acho que vai ficar uma coisa muito bonita, enquadrada na igreja, com o enquadramento do rio… E há ali toda uma dinâmica a partir de Santa Marinha.

Isto vem de encontro àquilo que falavamos há pouco. O Senhor Padre está há dois anos em Lousada, identificou esta questão e pôs mãos à obra…

O nosso objetivo, enquanto pessoas, é irmos procurando as melhores condições de vida para nós e para aqueles que nos rodeiam. E acho que a função do pároco numa paróquia é exatamente esta. É ter a capacidade de identificar aquilo que está bem e aquilo que porventura pode ser melhorado. Tudo isto é possível porque temos uma igreja belíssima. A casa paroquial está excelente, ou seja, há um trabalho que foi sendo feito no passado. Agora, abrem-se outras novas perspetivas. Como diz o Baden Powell, “que cada um possa deixar o mundo um pouco melhor daquilo que o encontrou”. Acho que esta é uma máxima interessante.

As redes sociais têm muitas coisas negativas, mas também têm algo positivo. Conseguimos às vezes perceber qual é a reação das pessoas a determinadas pessoas, obras. Em relação a si, quando publicamos a notícia dos seus 30 anos de sacerdócio e da festa, as reações foram de alegria. Somaram-se de elogios… Como é que se cultiva esta proximidade?

Acho que é da forma como Jesus Cristo fez. Primeiro é a presença, antes da palavra, do evangelho, é a presença, o aspeto humano. A presença amiga, que é capaz de saber escutar, que é capaz de apontar o dedo no sentido positivo de uma crítica, de ajudar a crescer mais um pouco. Essa foi sempre a minha função. Se tivesse que escolher entre a vida militar e a vida paroquial, eu não tinha opções, escolheria a vida paroquial. Por causa do contacto com as pessoas, desde os mais pequeninos aos mais idosos. Cultivar esta proximidade traz desgaste pessoal, obriga a andarmos sempre a correr, a ter uma agenda preenchida. Mas é a forma como eu me sinto realizado.

E é neste encontro, seja no futebol, seja na mesa de café, seja na rua, que nos obriga a estar na comunhão com as pessoas, saber o que é que elas pensam, quais são as suas alegrias e quais são as suas dificuldades.

Às vezes, esta proximidade também traz amargos de boca. Quais são os maiores desafios?

Temos que saber dosear. Há pessoas que se calhar não entendem bem que estarmos a tomar um café não quer dizer que de seguida podem vir ao cartório pedir o que quiserem, passar por cima de tudo e de todos. Às vezes é necessário criar alguma separação no sentido de aquilo que é exequível, aquilo que se pode ser feito, ou aquilo que não pode ser feito. E quando somos verdadeiramente amigos somos capazes de dizer que sim, como de dizer que não. É preciso estabelecer algumas linhas.

Caso contrário perdemos a nossa identidade, perdemos a nossa autoridade. O padre não está ali em nome pessoal, mas está em nome de Cristo e da igreja. A sua função e missão tem que ser preservada.

E não está do lado de ninguém, nem contra ninguém, não é? A ideia é conciliar e criar pontes…

Com certeza. A propósito, no domingo aconteceu a celebração mais festiva, e ofereceram-me uma peça em barro pintado à mão com a ponte da Lagoncinha. E eu tive uma intuição do Espírito Santo de dizer que se o Rio Ave para mim é um rio que me diz bastante porque ele nasce na terra de onde eu sou originário, e nós párocos somos construtores de pontes. Quando nós construímos muros estamos a afastar. Mas uma ponte pressupõe trabalho e pressupõe deixar-se também comunicar. E então aproveitei aquele momento para dizer que podemos ter de um lado da margem o padre ou o pároco, e do outro lado as pessoas. E podem estar todos muito bem, mas se não há algo que os ligue, cada um continua a falar para o seu lado.

Disse-me há pouco uma coisa muito interessante: se tivesse que escolher entre a sua vida paroquial e a vida no exército não pensaria duas vezes. Mas a verdade é que, depois de uma pausa, regressou à vida militar. O que é que o fez regressar?

É algo que não é fácil de dizer com palavras. Ou seja, este espírito de presença e de camaradagem que se vive… e agora nas Caldas da Rainha, onde eu estou há um mês e meio, e onde ali, como tem a Escola de Sargentos e também tem o Centro de Línguas, e onde muitos militares para cargos internacionais têm que fazer a certificação linguística. E então, quase todas as semanas encontro ali ex-camaradas que já estiveram comigo ou noutros quartéis ou nalguma missão internacional.

Tem muito a ver com a sua personalidade...

Sim, também. Tem sido uma agradável surpresa reencontrar pessoas que eu já não via há 10, quase 20 anos, e passado este tempo encontramo-nos e recordamos este espírito… e mantenho muito contacto com muitas pessoas que foram passando nos vários quartéis. Ainda hoje trocamos mensagens. Só quem vive é que percebe e particularmente nas missões internacionais, onde 24 sobre 24 horas há ali um espírito de força, de corpo, de camaradagem…

Cada vez mais a Arquidiocese de Braga se debate com a questão da falta de sacerdotes. Famalicão sofreu uma grande mobilidade, a propósito dessa falta de sacerdotes. É algo que o preocupa?

Claro, como é evidente. Há 30 anos eu fui dos quase dos primeiros padres a ter quatro paróquias. Por isso hoje, quando se diz temos quatro, cinco, seis paróquias não me é nada estranho. Há 30 anos um padre ter mais do que uma paróquia é que era novidade. E as primeiras nomeações que eu tive foi realmente para quatro paróquias, o que na altura já era assim uma coisa estranha. Claro que o número de sacerdotes tem baixado, fruto de circunstâncias. Na minha opinião temos que repensar as coisas de uma outra forma. Aí é que é o problema. E se temos as mesmas paróquias, temos menos sacerdotes, não podemos manter as coisas que fazíamos há 30 anos, ou há 10, ou há 20 anos. Aí é que tem que ser o grande esforço da igreja, desta adaptação aos tempos de hoje. E porque senão, o que acontece? Cada vez temos mais sacerdotes em burnout, e isto é preocupante.

Está a falar, por exemplo, na possibilidade de reduzir as Eucaristias?

Pensarmos as coisas de outra forma. Ou seja, não podemos manter a mesma estrutura que tínhamos há 10 anos. Não é exequível. Não temos sacerdotes, não temos pessoas, temos que repensar as coisas. A redução das eucaristias é, será um facto inevitável. Mas muito mais do que reduzir as eucaristias é cultivarmos uma nova mentalidade. Eu não posso um centro de saúde em todas as freguesias, ou um campo de futebol, um centro social… Ou seja, temos que pensar as coisas não num sentido muito fechado, sobre um territóriozinho, mas temos que pensar as coisas de forma mais alargada, e esse é o desafio. E se nós não o abraçarmos, vamos perder o comboio da história.

Já me disse que o seu projeto para o futuro da paróquia de Lousada é efetivamente o centro pastoral, o que implica um valor muito avultadoQuando é que vai ser exequível, como é que vai arranjar esse valor?

Ainda não sei. Ainda não sei.

Essa é que é a grande questão, não é?

Essa é a grande questão. A minha preocupação é primeiro que as pessoas percebam o projeto.

Porque as pessoas vão ajudar a pagá-lo…

Claro. Eu espero bem que sim. O meu objetivo é convocar uma assembleia paroquial para apresentar o projeto. Para que toda a gente possa perceber exatamente o que é que estamos a falar, quais as respostas que pretendemos com este projeto… Apresentar para que as pessoas se sintam motivadas e sintam que aquilo será parte da sua casa. E que as crianças, os jovens e os adultos tenham ali um espaço. Por isso é que vamos fazer, depois temos o projeto, iremos fazer um projeto em 3D para que as pessoas possam quase visualizar-se já dentro do espaço. Primeiro elas têm que gostar da ideia, têm que perceber qual é a função do centro pastoral e depois estou convicto que com um bocadinho de esforço, mas devagar, vamos conseguir atingir os objetivos.

Olhando para si, com o seu autoconhecimento, quem vai ser o padre Artur daqui a 30 anos?

Pois, mais velho, com mais cabelos brancos. Seguramente. Mas espero que com esta inquietação constante e sempre com esta necessidade de aprender mais, de escutar, e de servir. Só espero que Deus me conserve a saúde e esta disponibilidade para continuar a servir. Acho que é importante, depois o resto vão sendo pequenos ou grandes acréscimos.

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